Escritos

Sunday, December 03, 2006

Querida,

Veja a data da última carta que coloquei na minha gaveta. Fevereiro... um bom tempo. Não vou mentir para você: não consegui escrever cartas a você nos últimos meses. As palavras não vão para o papel, as palavras ficam encalhadas na minha garganta e tudo o que quero é gritar. Gritar bem alto. Gritar como se fosse o último grito, de desespero, de ódio, de paixão. Mortal, como garras de uma águia a me pegar, a presa, acuada em seu canto mais fechado, mais escuro, mais insalubre. Sinto gosto de sal enquanto escrevo isso. Mas não se sinta mal: esse gosto me vem à tona pois minha alma entrou no meu corpo, minha alma que já está se desfazendo e continua a cada dia, pontualmente, a se ferir.
Ainda que todos os valores que dizem ser bons desse mundo viessem a me levantar, eu insistiria em cair, pois é o patamar no qual... você desapareceu, e aparece: para mim. Aparece n'um mais elevado, lá em cima daquela serra, no topo daquela montanha, iluminada, como um anjo que desce à Terra para aqui a paz instalar. E você instala a paz em minha alma, instala o ser que falta ao meu ser, ao meu modo de viver e de sentir as coisas. A natureza me acompanha, e tempestade torrencial se faz em meu ínfimo corpo, cai como pedras de gelo, chocando-se nele com uma força vingativa, com uma força que se desdobra em risos porque assim é que se sente.
Sente-se, leia isto com carinho. Não pense que essa solidão me faz mal. Não: essas palavras só refletem um pequeno e passageiro momento. É o momento no qual me desprendo, solto-me e, com toda a força, vomito todas as mágoas que se acumulam. Perdoe o uso da forte palavra, mas é a que mais se encaixa nesse contexto. Nos outros dias, enfim, vivo com você. Vivo sempre, e, assim, vivo forte.
Tenho tantas coisas a lhe falar. Mas as guardarei para quando eu precisar com você conversar. As cenas repetir-se-ão; os pratos permanecerão cheios, pois falaremos até perder a fome, ou comeremos sem proferir som. Ficarei olhando seus olhos. Ficarei observando seu semblante, ainda resplandecente da juventude que desfrutamos. Ficarei endeusando seu ser que tanto me magoou. Ficarei lembrando dos beijos que eu trocava quando me tocava e trocava. Não é possível. É um beco sem saída, uma flor sem perfume, matas cinzeladas pela minha passagem, dias vestidos de cinza-escuro, torrentes chuvas verticais. Isso tudo sou eu, que por fim era você. Não a percebi durante os meses. Perdi-a.
Meus novos amores estão escritos. Posso tê-los nas horas mais insólitas dos dias e das noites. Posso revê-los sem antes telefonar. Posso saber como eles estão só por estarem aqui. Posso mandar tudo se calar quanto eu bem entender. Posso amar como eu sonhava.
Sonhava.
Meus dias são longos, e as noites curtas. Perceba a hora avançada: quatro horas. Passei as últimas cinco com seu anel rodeando meu dedo, eu o olhando atentamente, para ver se dali eu conseguiria extrair o mínimo de brilho; o raio de luz que fosse. Em vão. Nada se concretiza quando muito se quer. Isso vale para tudos e para todos. Anuncio a brevidade de meu ser, entenda-o como quiser.
Podem parecer amargas minhas palavras, mas não o é minha alma. Ela é sempre o que para você foi: uma alma zelosa, sutil, seleta, fulgurante, como você bem a merece. Esqueça o que de ruim pode haver nela...
Deixe que eu pense [...] ...

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