Escritos

Sunday, August 28, 2005

Preso a sonhos, que são ilusões, preso a correntes invisíveis do pensamento, do imaginar, do fixo e do infixo, preso a todos os sentimentos do mundo e sem com nenhum deles me identificar.. como ser, humano?

Como pessoa?

Habitante?

Habitat?

Como um estandarte que é fixado em todos os lugares, para lembrar-lhe que és miserável, esquecível, esquecido, estorvado. Como aquele homem de terno no olho mágico. Enfim, atado, fixo, acorrentado, imobilizado, enfaixado, engessado a todos esses sentimentos que nem sei quê são, se são, ou se serão.

Verão.

O quente do meu sangue faz-me enjoar, faz-me pensar em mim mesmo, no que não fiz, no que deixei de não fazer, no que poderia ter feito, em mim. Tudo em mim, como um centro egoísta do mundo, tudo sou eu.

E nada sou.

Os sonhos, as imagens, as paradas, as rejeições vão-se acumulando em meu grande baú de mágoa, em minha sede de vingança, em minha ânsia por vitória. Uma após a outra, elas se curvam perante a mim, e sinto-me rei, reino dos céus, o Rei. E não há nada que se possa fazer mais, dono do mundo. Senhor de tudo. Perdido em mim mesmo.

Os prazeres que me negaram, as mulheres que eu não amei, as relações que não tive, o mundo que não conheci, o que por imbecilidade não pude (ou quis) desfrutar, o sofrimento que evitei achando o sofrer naquilo sofrível, a criação poética de meu porão.. a invenção sublime de uma paz armada, o desenvolver dela, como uma criança, que nasce e cresce só de corpo: vê ela adulta, és a imagem tua, minha querida; teu prazer e tua ruína, unidas de mãos dadas, num sobrepor fantástico de coloridos sonhos e planos que, como açúcar (ou sal) em água são dissolvidos.. e desaparecem.

Desvanecem.

Somem.

Morrem.

Dormem

talvez para que um dia alguém, que saiba entender sua alma, seus versos, seus prazeres, esta folha; alguém que não negue amor quando lhas é oferecido; alguém que saiba o valor certo dar a quem o merece; alguém que exista,

Que cumpra.

Que saiba.

Que o tenha, apaixonadamente, nesse infindo mundo que é o

Desesperar, o

Sofrer, o

Reter, o

Ter. Possuir. Egotísticamente ao outro, mas configurando relação recíproca da bondade.

Da juventude?

Da esperança?

Da fortuna?

E assim, sigo, inerte, hirto, pelos caminhos da minha alma: um corredor de luzes vermelhas se põe diante minha frente, algo que não entendo está à minha vista, algo que não.. compreendo?

Entendo?

Com que conjuro, inconfidente?

Nesse corredor jaz uma porta aberta, da qual emana luz azul-celeste. Esta luz tosca e turva refaz caminho, o caminho tortuoso de minha existência. Caminho até a porta, encosto-me nela; n’uma placa, escrito em vermelho-neon, “rejeições”. A única porta aberta do imenso corredor? Será que haverá outras portas, ainda com as luzes apagadas? Até onde vejo, não vejo; mas não vejo o fim do corredor também. Terá fim?

Será esse o fim?

Cheguei ao fim?

Fim.

Não.

Há saída, ou entrada; entro no quarto, lá dentro é claro, é dia, ofusca meus olhos: um óculos preciso para poder enxergar minha vida, entumescida pela minha fosca íris. Nada posso, porém, nada quero, em nada insisto: encaro minha desilusão de olhos e braços abertos, mesmo que a clareza umbrosa cegue-me a vista, eu adquira o mal-branco, e nada mais eu veja. Logo, estou sentado, e tudo escureceu.

Choro.

Pio.

Grunho.

Uma voz ecoa pela minha cabeça, pelas paredes, por tudo; vozes que não mais lembrava, vozes que há muito tentava esquecer ou mesmo recordar; as palavras, mesmo que eu levasse aos mãos aos ouvidos, entravam-me àlma e ali alojavam-se. Lembravam-me do ... ... ... ... das pessoas.

Das rejeições,

Dos amores jogados-no-lixo-por-pessoas-que-não-o-mereciam-, ...

Ou que não se importavam

Mas que recebiam (recebem) amor mais do que aqueles que o merecem;

E se sofre e se reparte e se humilha e se castra,

E sou e me torno, enfim e por fim...

Refém de mim mesmo.

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