Escritos

Saturday, July 23, 2005

Petrarca e Liszt no Soneto 104

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
et temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra il cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto 'l mondo abbraccio.

Tal m'à in pregion, che non m'apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m'ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.

Este é o soneto numerado 104 no Canzoniere de Francesco Petrarca, o criador do soneto. O soneto, impregnado de dúvidas e desconsolos por parte do "eu" lírico, inspirou em Liszt (século XIX, portanto, na fase romântica da música dita 'clássica') a composição de uma de suas mais belas obras.

De extrema e complicada execução, a obra (que está na coleção "Deuxième Année de Pèlerinage", volume 43 da excelentíssima gravação de Leslie Howard pela Hyperion) tem caráter sutil e melancólico, presente em todo o soneto. A música inicia-se com um adagio crescente, que culmina em um clímax, subitamente descendo a uma cadência completamente fora de tempo regular em appogiaturas lentas. O início da linha melódica dar-se-á na segunda parte, de complexa composição e que requer extrema habilidade do pianista (Bolet e Horowitz tocaram-na perfeitamente). As quiálteras da mão esquerda entram em conflito com os arpejos constantes da mão direita, que dão toque de continuidade na melancolia do "eu" lírico-musical. A repetição de notas insinua a continuidade da lamentação do poeta e do piano.

Após esta segunda parte, a música atinge o clímax em seu ponto médio: acordes de três a quatro notas, cadências muito rápidas (que parecem realmente sair de um subterrâneo da melodia para se impôr na música) e a mudança para fortíssimo dão esse efeito magnético à música. Apesar desse estrépito, a indicação na partitura mantém-se sempre como sempre appassionato, fazendo com que o pianista se esforçe ao máximo a passar a impressão de paixão que o poeta sentira no poema.

O final mantém-se dúbio, com os constrastes entre notas agudas e notas graves, exploradas muito por Chopin, e que Liszt dele as imprestara. A composição não termina, deixando no espaço ainda um resquício do que o poeta narra à sua amada, explicitando-o no final do poema: "
in questo stato son, donna, per voi"...

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