Escritos

Saturday, July 23, 2005

Honoré de Balzac - A coisa em Ghent

Um estranho fato ocorreu em Ghent enquanto eu estava lá. Uma senhor há dez anos viúva jazia em sua cama, atacada por uma doença mortal. Os três herdeiros insignificantes estavam à espera de seu último suspiro. Não saíam de seu lado por medo que ela desse seu testamento ao convento de Beguins, pertencente a cidade. A mulher doente manteve-se quieta; ela parecia cochilar e a morpte parecia se espalhar gradualmente por seu mudo e lívido rosto. Podes imaginar aqueles três parentes sentados em silêncio pela’quela meia-noite de inverno ao lado do leito dela? Uma velha enfermeira está com eles e ela sacode a cabeça; o doutor vê com ansiedade que a doença alcançou seu estágio final, e segura seu chapéu com uma mão e com a outra gesticula aos parentes, como se para dizê-los: “não tenho mais visitas a fazer aqui”. Por entre o grave silêncio do quarto é ouvido o fraco som suave de uma tempestade de neve que bate contra a proteção da janela. Por medo que os olhos da mulher que perece possam ser atingidos pela luz, o mais jovem dos herdeiros havia posto um amparo na vela que estava perto da cama a fim de que o círculo de luz mal pudesse chegar ao travesseiro da cama mortuária, da qual a doentia e amarelada aparência da mulher doente fosse notada como a figura de Cristo imperfeitamente folheada a ouro e fixa em uma cruz de prata corroída. Os raios trêmulos espalhados pela chama azul de um fogo estalante era assim a única luz desta sombria câmara, onde o resultado final de um drama estava para findar. Um pedaço de lenha subitamente rolou do fogo ao chão, como se fora o presságio de alguma catástrofe. Ao som disto, a mulher doente rapidamente levantou-se a uma postura sentada. Ela abriu os dois olhos, claros como os de um gato, e todos os presentes a fitaram em espanto. Ela viu a madeira avançar, e antes que qualquer um pudesse ver, um movimento inesperado que pareceu ser motivado por um delírio: ela pulou da cama, pegou as varas e jogou o carvão de volta à lareira. A enfermeira, o doutor e os parentes apressaram-se para assisti-la; pegaram a mulher que morria em seus braços. Colocaram-na de volta à cama; ela pousou sua cabeça sobre seu travesseiro e depois de alguns minutos morreu, mantendo os olhos fixos, mesmo depois da morte, naquele pedaço de madeira no chão que fora marcado pelo toque incendiante. Mal havia a Condessa Van Ostroem expirado quando os três co-herdeiros trocaram olhares de suspeita, e pensando não mais em sua tia, começaram a examinar o chão misterioso. Como eram belgas, seus cálculos foram rápidos como seus olhares. Um acordo fora feito em três palavras murmuradas em voz baixa dizendo que nenhum deles deveria deixar a câmara. Um servente fora despachado para chamar um marceneiro. Seus insignificantes corações batiam com excitação à medida que se reuniam em torno do chão de tesouro, e observaram o aprendiz dando a primeira batida com seu machadinho. O chão fora cortado.
“Minha tia sinalizou”, disse o mais jovem dos herdeiros.
“Não; fora um mero tremor de luz que dera essa aparência”, retrucou o mais velho, que mantinha um olho no tesouro e outro no cadáver.
Os aflitos parentes descobriram exatamente no lugar onde a lenha havia caído um certo objeto artisticamente envolto em gesso.
“Prossiga”, disse o mais velho os herdeiros.
O martelinho do aprendiz então trouxera à luz uma cabeça humana e alguns estranhos pedaços de roupa, as quais reconheceram como sendo do nobre que toda a cidade acreditava ter morrido em Java, e cuja perda fora amargamente deplorada por sua esposa.

Traduzido por Rafael