Escritos

Saturday, July 23, 2005

Crime e Castigo (Dostoevski)

Dostoevsky destaca-se como um dos maiores escritores da literatura mundial do século XIX. Consagrados pelos críticos e muitas vezes amado pelos leitores já em sua primeira leitura, seus romances distinguem-se pelo caráter psicológico pelo qual os personagens são apresentados. "Crime e Castigo" fundamenta-se nesse princípio.
A narrativa (endógena e exógena) centra-se na figura de Rodion Romanovitch Raskólnikov (chamado mais por esse último nome). Seu nome deriva da palavra russa raskolnik, que significa "dividido" (caracterítica presente em quase a totalidade dos pensamentos da personagem). Logo de início, um dos temas retrados pelo autor se desenvolve: Raskólnikov acha-se uma espécie de 'super-homem', um ser 'extraordinário' e, assim, posto acima das regras e concepções da maioria dos homens. Logo, torna-se um alienado à sociedade. O exemplo marcante desse sentimento inerente ao personagem é um artigo que escreve no qual se justifica certos tipos de crime, dependendo das circunstâncias em que esses são cometidos e seu propósito final (lembrando a frase nunca dita e atribuída a Maquiavel: "os fins justificam os meios").
Outro tema abordado no brilhante romance é o niilismo, presente na Rússia na época da composição da obra. Consiste, condensadamente, na negação da família (Raskólnikov por várias vezes evita a companhia da mãe e da irmã Dúnia, que papel importante faz na narrativa) através da distância relativa entre o personagem e seus parentescos; rejeita as ligações sociais, desprezando a idéia de alma e apegando-se ao mais estrito materialismo. Também, muito notável no romance, o utilitarismo, ou seja, a idéia da finalidade de algo depender do bem que esta traz à humanidade (Raskólnikov defende um crime, dizendo que um criminoso que fora morto é um problema a menos na sociedade); presente na personagem central, o afastamento das emoções e da sociedade, inscritas no livro em pequenos detalhes, tais como a posição em que se encontra Raskólnikov: isolado no bar, no canto da sala, com aparência tímida; a idéia de sentimento e emoção também o personagem rejeita, pois no romance há, por parte de Raskólnikov, tal desprezo e indiferença pelos sentimentos dos outros (e a certo nível com os seus mesmos) que às vezes o modo como se expressa é rude e intempérico. Obviamente há exceções, como no episódio da carta, no ínicio do romance.
Há motivos apontados pelos críticos que fazem com que as pessoas ajam da maneira como o fazem no livro. Cita-se a pobreza presente na Rússia, como se nota no decorrer do romance, descrevendo paisagens decadentes, imagens rudimentares (prédios velhos, decadentes) e dá-se imensa importância ao dinheiro (notar como as pessoas e, principalmente o chefe de polícia, fica escandalizado com a doação do dinheiro dado a Raskólnikov por sua mãe ao enterro de um homem que andava pelas ruas embriagado e fora atropelado por uma carroça).
O romance se passa na cidade de São Petersburgo ("onde o sol se põe às 21 horas e nasce às 23 horas") mas essa é um mero plano de fundo para a narrativa. O verdadeiro local onde a narrativa se encontra é na própria mente de Raskólnikov, na descrição de seus pensamentos dúbios, divididos, mascarados e conflitantes. Exatamente aí o autor revelara-se brilhante em sua obra. A tese do autor não é analisar o crime ou mesmo o castigo em si, mas sim o tempo decorrido entre um e outro; a mente de uma pessoa que deve suportar o imenso fado de carregar consigo e sentir-se perseguido sempre (alguns psicólogos chamam esse estado de 'paranóide'); tanto é que o crime se realiza na primeira parte do livro e o castigo vem centenas de páginas depois. Alguns críticos defendem a opinião que o 'castigo' é a própria condição de Raskólnikov, a de viver em constante deturpação mental.
A obra é considerada um clássico e merece a leitura prazeirosa. Há várias edições disponíveis no mercado, das mais baratas e acessíveis às mais caras. De qualquer maneira, o leitor apega-se ao livro de tal forma que não consegue largá-lo, mesmo já desconfiando o final da história (que marco, com convicção, ser o menos importante de tudo); o desenrolar dela no modo de escrita que empreende Dostoevsky é o mais impressionante. Um clássico imortal.

Rafael

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