Escritos

Sunday, July 31, 2005

CARTA 2

Por que tem de ser assim? Por que as coisas não podem se encaixar, os fatos concatenar, os objetivos condizer? Por que, quando eu menos esperava, você foi me abandonar? Ainda não entendo; e cada vez que penso mais, cada vez que reflito sobre isso, não vejo motivos plausíveis para seu abandono. Já falei para você, já fiz você ler, que não compreendo sua mudança súbita, sua atitude em relação a mim.

Não compreendo nada.

E, por isso, vou conhecendo as ruas da cidade, as casas por onde passo, à noite; paro, olho lá dentro de uma delas: ali há um casal, sentado no sofá, com os pés esticados sobre um pufe aparentemente muito aconchegante, e apenas a luz azulada da televisão ligada alumiando o quarto todo; há um sorriso em ambas as faces; mas, será que são felizes? Digo, realmente felizes? O que estaria ela pensando, ou ele, nesse exato momento? Qual a fórmula mágica para tanta alegria e compaixão? Certamente não é tão fácil de se fazer como a fórmula da desilusão, que se acha como água brota da terra por aí. Fico ali, estacado em frente a um domicílio de um casal feliz que nem conheço, melhor seguir adiante, antes que o próximo carro passe.

Em cada canto, em cada rua, em cada viela, em cada estrada, em cada vereda, há uma mágoa que ainda não foi engolida, absorvida, retirada. As casas dizem-me isso; é só olhar para elas e saberás como se vive a pessoa ali dentro. Como dizia a canção: “casas mal vividas: camas repartidas, faz-se revelar”. Conheci muita gente, e nunca falei com elas, durante essas minhas longas travessias pelas ruas da cidade à noite, perambulando errante, como se na próxima esquina eu fosse, não a encontrar, mas encontrar um pedaço que fora nós algum dia, remoto no passado, presente em mim.

Por isso, vou para casa, abatido por nada, sofrendo da dor da saudade, que é insaciável de fome, e, com esforço inefável, junto todas as coisas que podem ma fazer lembrar e as espalho sobre a cama, reduto do que fora, nossas noites quentes, frias, vivas, e mortas. Olho para cada coisa, porém a cama jaz vazia, imóvel, gelada; não há sentimento espalhado por cima dela: há sentimento espalhado por mim, salpicado em minha alma, um resto de sentir que não se apaga, ou que em mim não se apagou. Não há nada, de fato, sobre a cama. Você levou contigo tudo de real, concreto, tangível que havia em nossa casa. Só não levou o que de você em mim restou.

E dói-me lembrar de todos aqueles planos, aquelas fantasias, aqueles sonhos que fiz para nós dois; uma incrível quantidade de amor que eu joguei para o ar, a fim de que você pudesse cingir alguma parte dele; mas foi disperdiçado, por tolice, por nós dois. E ainda assim, sozinho aqui em casa, tento buscar alguma coisa que me faça lembrar sua presença, senti-la aqui comigo: um cheiro, lembrar daquele beijo, que nunca provei outro igual, qualquer coisa; e desespero-me porque não há nada seu mais aqui, e tudo aqui está cheio de você. Como já lhe disse, o sofá, que ainda está no escuro, está cheio de você; nosso quarto, nossa cama, este lençol está cheio da sua presença; sim, o lençol.. ainda me deito todas as noites sobre o lençol sobre o qual demos nosso primeiro beijo, dói-me, inclusive, ter de lavá-lo, pois sinto que a cada uma dessas lavagens um pedaço de seu cheiro, que já não existe mais, vai-se embora, é levado pela corrente, como a corrente que a apartou de mim.

E assim sigo minha existência, não minha vida, pois não a tenho decerto, esperando que um dia voltes; tenho andado algumas vezes na sua antiga casa, ainda escurecida pelo vazio que ali permanece, anoitecida e um tanto gasta, depois que a energia dela fora embora. Minha alma é como sua velha casa, está perdendo a energia paulatinamente desde quando foi embora, carregada pelo vento.

Por Rafael

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