Escritos

Sunday, July 24, 2005

Carta 1
por Rafael

Olá, querida. Já faz muito tempo que não nos falamos, então decidi sentar-me para escrever esta carta. Venho planejando-a há algum tempo, mas sempre me senti covarde e nunca pude começar realmente esta carta; agora, alguns dias depois, consegui reunir a coragem sufiente para escrever.

A primeira coisa que me atrapalha é examatente a que era a mais fácil de todas, no nosso tempo: sobre o quê irei falar? Vê: esse não sou eu, eu sempre falei bastante, conversei com você; sempre ouvia seus problemas diários, aquelas coisas insignificantes que interferem no nosso dia a dia; sempre deixei que você falasse o que queria para mim, e eu nunca interrompia. Agora, sentado só aqui nesta sala – você se lembra da sala, não? Estou na mesa, com a luz de uma pequena luminária iluminando apenas esta branca folha de papel; desde que fora algumas coisas mudaram por aqui: o sofá já não é mais branco: coloquei um azul no lugar, porque o branco me faze lembrar você; não acendo mais a luz por cima da mesa, deixando seu lugar no escuro, pois era ali que comias, sorridente e elegante, a comida que nossa criada fazia: para que não me abata a cabeça, ela permanece no escuro, exceto à luz do dia; a criada, mesmo, fora embora, depois explico o por quê – então, sentado na sala, a nossa sala, sinto como se não conseguisse mais falar de nada, nem mais aos amigos que você tanto apreciava; alguns deles, veja!, casaram-se; outros estão como eu e outros estão felizes, mesmo sós.

A palavra me falta, assim como você me falta. Na verdade não sei bem o motivo pelo qual escrevo, pois provavelmente esta carta não irá sair dessa mesa; o pó que o tempo, lento, deposita sobre a folha irá recobrir nosso passado. Sinto falta dele. Com ceteza. Sentes também? Sou egoísta de achar que não, que nosso passado em você se apagou, como a vela que se apaga quando chega ao fim. Serás a vela e eu a chama? Ou és a chama e eu a vela? Não sei – tudo isso é muito estranho, tudo está muito estranho agora.

O piano de carvalho, aquele que alegrava nossos Natais e anos novos – este sim é usado. Toco todos os dias, posso até dizer que fiquei bom em sua infinda jornada de aprendizado. Como todo o resto, a música mudou. Deixei nosso Scott Joplin de lado, seus regtimes não mais animam as cordas do piano; estas, depois de brusca mudança, amoleceram-se e entristeceram-se. De Joplin passei a Chopin – incrível como esse grande mestre invoca os sentimentos mais escondidos e refreados da minha alma: sinto-me livre, como se ao ar passasse minhas mágoas, minhas tristezas, meus encantos, enfim. As notas graves dos noturnos invadem a clareza e o luz fulva do sol, e ela se apaga, porque eu me apago. Ainda resta um pouco daquelas melodias de nossa vida. Mas elas não saem do piano, não. Elas estão presentes em cada canto da casa (alguns dias em alguns deles sento-me nesses lugares, como se com isso eu pudesse – e esperasse – ouvir o toque de mão na porta, tão característico seu que ainda o escuto quando vou dormir, ou mesmo no meio de uma música que dedilho no piano), em cada espaço vago da casa, ou que a casa reservara para mim. Às vezes penso na casa: sinto como se ela soubesse e antevisse o que minha vida seria, e logo se adaptasse à minha nova vida, ao meu novo estilo; os degraus da escada sempre descem, como minha vida, choram e se espelham no meu próprio e interior-exterior tormento. Chopin, felizmente, dá-me o consolo de que preciso.

Já o sofá era demais. Quantas e quantas noites passamos ali, espraiados nas largas almofadas brancas que colhiam nossas cabeças! Não agüentei, absolutamente, e resolvi que o removessem de nossa casa. A televisão: não a ligo há mais de quatro meses. Simplesmente não sinto vontade de ver o que acontece no mundo, o que se passa com os outros, gosto apenas de ver o que se passou conosco e o que não se repetirá. Nada se repete, eu sei, como você mesmo dizia, mas tudo se recria, como eu o digo agora. Meu tormento aumenta quando sei e vejo que nada daquilo que poderia ter sido, será; e nada daquilo que foi, recriar-se-á. Apenas sinto minha alma esboçada, como se não estivesse completa, como se não fosse algo bom, e sim algo que me consumisse totalmente por dentro, por fora, por todo lugar.

As ruas, evito-as. Vejo pessoas andando através da janela – e aqui causa-me o maior pesar, pois fora na janela que começamos e ali... ..., ..., terminamos – essas pessoas andam para lá e cá; que será que pensam? Será que sofrem? Será que estão alegres? Se bem que esses últimos são os mais fáceis de se detectar, quem me dera!, ao menos um segundo a mais... Quando chove, sento-me ao pé da janela para ver os caminhos argênteos da água na janela: a cidade, ou a disposição das casas, tem um imenso poder de fazer minha mente reminescer. A água cai, assim como eu caio, dentro de mim; carros passam cautelosos, pessoas passam correndo, um animal aqui e ali: todos eles têm um propósito, todos eles têm um destino, e eu estou sentado na janela. Não tenho destino, ou, porém, já esteja ao fim do meu destino: estou em casa, em nossa casa. Não! Não cheguei ao fim! Você não está presente!

Soube logo após sua partida que estás novamente casada. Sinto-me feliz; não, não por você, mas pela outra pessoa. Terá uma ótima e inefável companhia, sem dúvida. Não sinto por você, pois, talvez, irás fazer o mesmo que fizera comigo a ele. Logo, sinto pena dele, isso sim. Mas não a culpo, nem o culpo. Talvez eu devesse me culpar, ou não; não sei ainda ao certo o que ocorrera, e nem quero nem desejo nem penso nem ligo nem me apresso nem desejo saber. Que permaneçam ocultos os motivos! E, no entanto, não deixo de pensar de pensar de saber de ligar de me apressar a saber; o que eu fiz de errado? Dizia-me que eu era o homem de sua vida. Dizes tu também para outro? Amoleces o coração honesto de alguém e também o jogará fora? Será que, pelo seu preconceito, achaste que eu seria algum tipo de vadio como tantos outros por aí?

Não sabes, e isso não é só contigo, que ainda há pessoas de bem, que se escondem por trás do mal para que possam ser intergrados à sociedade, que demanda pessoas desonestas, pessoas más (não em todos os sentidos, mas você sabe no qual eu falo); e então, quando algum honesto lhe aparece, parece-lhe fraco, indisposto e atencioso demais. Nunca entendi nos seus xingamentos, nos seus momentos de raiva, por quê dizia sempre que eu era atencioso demais. Não era isso que procuravas? Não é isso que procura toda a mulher? Tenho hoje minhas dúvidas! E o fato de falar de ser ‘romântico’. Sempre li vi ouvi que as damas de nossa sociedade depravada apreciam um bom cavalheiro. Não fui cavalheiro o suficiente? Não tens o direito de o negar! E é isso o que acontece! As pessoas de bem, sentimentais sem ser execráveis, são negadas! E o que resta a eles? Sabes! A melancolia. A mesma que me abate agora; aquele sentimento de ‘e se eu tivesse sido feito falado agido repreendido xingado’, menos ‘amado’ demais? Vivera eu, então, num mundo de sonhos, em outro planisfério, num mundo onde a ilusão predomina acima de qualquer coisa, acima de todas as coisas: em um mundo onde eu achava que verdadeiramente me amavas queria apreciava desejava, e não apenas falava nisso tudo, como quem nada quer. Dei-te o mundo, dei-te o que sonhavas, e pretendia dá-lo mais, porém foste antes que pudesse ter tido a sorte que nunca terás! Dei-te, enfim, minh’alma, como escrevem os poetas – esses sim sabem como me sinto. E tu ficaste com ela, guardaste-a num baú, com uma imensa combinação, que nunca mais será aberto, que nunca mais terá o prazer de ser aberto. Esse baú, minha amada, é minha caixa de Pandora. Ali está minha alma, ali estão os males de nossa casa; ali ficou a minha vida.

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