Escritos

Sunday, July 31, 2005

CARTA 2

Por que tem de ser assim? Por que as coisas não podem se encaixar, os fatos concatenar, os objetivos condizer? Por que, quando eu menos esperava, você foi me abandonar? Ainda não entendo; e cada vez que penso mais, cada vez que reflito sobre isso, não vejo motivos plausíveis para seu abandono. Já falei para você, já fiz você ler, que não compreendo sua mudança súbita, sua atitude em relação a mim.

Não compreendo nada.

E, por isso, vou conhecendo as ruas da cidade, as casas por onde passo, à noite; paro, olho lá dentro de uma delas: ali há um casal, sentado no sofá, com os pés esticados sobre um pufe aparentemente muito aconchegante, e apenas a luz azulada da televisão ligada alumiando o quarto todo; há um sorriso em ambas as faces; mas, será que são felizes? Digo, realmente felizes? O que estaria ela pensando, ou ele, nesse exato momento? Qual a fórmula mágica para tanta alegria e compaixão? Certamente não é tão fácil de se fazer como a fórmula da desilusão, que se acha como água brota da terra por aí. Fico ali, estacado em frente a um domicílio de um casal feliz que nem conheço, melhor seguir adiante, antes que o próximo carro passe.

Em cada canto, em cada rua, em cada viela, em cada estrada, em cada vereda, há uma mágoa que ainda não foi engolida, absorvida, retirada. As casas dizem-me isso; é só olhar para elas e saberás como se vive a pessoa ali dentro. Como dizia a canção: “casas mal vividas: camas repartidas, faz-se revelar”. Conheci muita gente, e nunca falei com elas, durante essas minhas longas travessias pelas ruas da cidade à noite, perambulando errante, como se na próxima esquina eu fosse, não a encontrar, mas encontrar um pedaço que fora nós algum dia, remoto no passado, presente em mim.

Por isso, vou para casa, abatido por nada, sofrendo da dor da saudade, que é insaciável de fome, e, com esforço inefável, junto todas as coisas que podem ma fazer lembrar e as espalho sobre a cama, reduto do que fora, nossas noites quentes, frias, vivas, e mortas. Olho para cada coisa, porém a cama jaz vazia, imóvel, gelada; não há sentimento espalhado por cima dela: há sentimento espalhado por mim, salpicado em minha alma, um resto de sentir que não se apaga, ou que em mim não se apagou. Não há nada, de fato, sobre a cama. Você levou contigo tudo de real, concreto, tangível que havia em nossa casa. Só não levou o que de você em mim restou.

E dói-me lembrar de todos aqueles planos, aquelas fantasias, aqueles sonhos que fiz para nós dois; uma incrível quantidade de amor que eu joguei para o ar, a fim de que você pudesse cingir alguma parte dele; mas foi disperdiçado, por tolice, por nós dois. E ainda assim, sozinho aqui em casa, tento buscar alguma coisa que me faça lembrar sua presença, senti-la aqui comigo: um cheiro, lembrar daquele beijo, que nunca provei outro igual, qualquer coisa; e desespero-me porque não há nada seu mais aqui, e tudo aqui está cheio de você. Como já lhe disse, o sofá, que ainda está no escuro, está cheio de você; nosso quarto, nossa cama, este lençol está cheio da sua presença; sim, o lençol.. ainda me deito todas as noites sobre o lençol sobre o qual demos nosso primeiro beijo, dói-me, inclusive, ter de lavá-lo, pois sinto que a cada uma dessas lavagens um pedaço de seu cheiro, que já não existe mais, vai-se embora, é levado pela corrente, como a corrente que a apartou de mim.

E assim sigo minha existência, não minha vida, pois não a tenho decerto, esperando que um dia voltes; tenho andado algumas vezes na sua antiga casa, ainda escurecida pelo vazio que ali permanece, anoitecida e um tanto gasta, depois que a energia dela fora embora. Minha alma é como sua velha casa, está perdendo a energia paulatinamente desde quando foi embora, carregada pelo vento.

Por Rafael

Tuesday, July 26, 2005

America's Hiroshima


Esse é o nome carinhosa e supostamente atribuído a um novo plano desenhado por parte de Osama bin Laden e sua afamada Al-Qaeda ("A Base", em tradução rude) que consiste em levar aos Estados Unidos nada mais-nada menos que 70 bombas nuncleares para serem detonadas, como uma retaliação e um "protesto" à permanência de tropas norte-americanas (principalmente) no Iraque. A notícia corre pelos sites de mídia não-oficiais.

De acordo com esses sites, Osama comprara as bombas ou as retirara da ex-URSS. Convém lembrar e mesmo questionar que 70 bombas simplesmente desaparecidas de um arsenal controlado em parte pelos próprios norte-americanos é fato alarmante (ou mesmo irônico). De qualquer forma, essas bombas foram transportadas ao México e adentraram os Estados Unidos com a ajuda de uma gangue mexicana chamada MG-13. Dediquemos um parágrafo a ela, visto ser até certo ponto desconhecida dos brasileiros.

A gangue MS-13 (Mara Salvatrucha), de acordo com o site KnownGangs.com, é composta de exilados de El Salvador, resultado de uma guerra civil nesse país. Eles então fugiram para os Estados Unidos, mas mantiveram contatos com a gangue mexicana El Mara; por causa da discriminação que os espanhóis (latinos) sofrem nos Estados Unidos, a gangue resolveu tornar-se "oficial", sendo organizada hierarquicamente e possuindo membros desde os 12 anos de idade até adultos. Ela é atuante no México, na América Central como um todo (mais notadamente Guatemala, Honduras e El Salvador), nos Estados Unidos Central e até mesmo no Canadá. O site da Newsweek classifica-a como a gangue mais perigosa dos Estados Unidos.

Bom, depois dessa rápida digressão, continuemos aos passos do plano de Osama bin Laden. Sendo as bombas transportadas pela gangue MS-13, elas já se encontrariam nos Estados Unidos, prontas para a detonação, apenas aguardando ordem expressa do Oriente. A respeito do número de bombas, as opiniões de especialistas em terrorismo variam: há o grupo que diz que as bombas são em número de sete, alguns dizem quatro e a maioria diz quarenta. O dinheiro da compra dessas bombas viria dos aliados chechenos na Criméia.

Os locais-alvo seriam as capitais mais conhecidas dos Estados Unidos e, de acordo com informações supostamente obtidas por informantes nos Estados Unidos, as bombas seriam colocadas em locais com maior densidade demográfica relativa de crianças. Algumas cidades são apontadas: New York City, Los Angeles e San Francisco.

A suspeita desse ataque de destruição em massa (e que mataria cerca de quatro milhões de norte-americanos), veio de um ex-diretor da CIA, Paul L. Williams, através de um livro seu
"The Al Qaeda Connection: International Terrorism, Organized Crime and the Coming Apocalypse" ("A Conexão Al-Qaeda: Terrorismo Internacional, Crime Organizado e o Apocalipse Vindouro"). De acordo com suas palavras, um mês depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, duas malas contendo cerca de 80kg de urânio e plutônio, suficientes para fabricar bombas com até 2 kilotons em excesso, teriam chegado às bases operacionais da Al-Qaeda nos Estados Unidos. Uma dessas malas possui o número de série russo 9999 e data de 1988. O mecanismo, ainda de acordo com Williams, "é simples:o plutônio e o urânio são mantidos em compartimentos separados que estão ligados a um mecanismo detonador que pode ser ativado por um relógio ou uma chamada de celular". O presidente Bush falhara em suas políticas em relação ao México, mas ordenara a construção de bunkers (espécie de fortificação usada em guerras) para manter seguros os oficiais do governo em caso de ataque. Ainda de acordo com ele, cada um dos membros da MG-13 teriam recebido de 30 a 50 mil dólares para cada uma dessas malas transportadas Estados Unidos adentro.

No entanto, alguns fatos chamam a atenção de pesquisadores e mesmo curiosos no assunto. Em 2002, um aviso sobre uma operação deste tipo fora dada jornal London Times (obviamente, de Londres). Em 24 de novembro do mesmo ano, a mídia de notícias "The Observer" publicou na íntegra uma carta de Osama bin Laden aos americanos e àqueles que ocupam seu país, indicando as razões pelas quais os ataques contra as "potências ocidentais" vão continuar (Osama citou até o Alcorão, algo que relembra o famoso "Olho por Olho, Dente por Dente" do Hamurabi: "É dada a permissão de lutar (contra os infiéis) aos fiéis que contra esses lutas são travadas, pois estes foram enganados e certamente Alá é Capaz de garantir-lhes [aos fiéis] a vitória", Alcorão 22:39). Mais alertas foram feitos em 2003, através da mídia jornalística e sites de internet, no sentido da obtenção de armas nucleares por parte da Al-Qaeda.
Um fato que chama a atenção resume-se na seguinte pergunta: por que a 'grande mídia' (jornais como o The New York Times) não têm ainda matérias explícitas sobre tal possível ataque, que, apesar da parcela da população mundial ser indiferente, devido ao crescente anti-americanismo, é plausível, haja visto o tamanho do ódio que movimenta a cabeça dos extremistas islâmicos. Os sites que informam esse tipo de notícia (principalmente o WorldNetDaily) são chamados de "mídias alternativas", não sendo levados em consideração.

Há alguns membros da política dos Estados Unidos que estão preocupados com o assunto, a exemplo do republicano Tom Tancredo, que está pedindo uma análise de inteligência sobre as armas que a Al-Qaeda possui. Nenhuma palavra é dita pelo presidente George W. Bush ou qualquer outro de seu governo até o presente momento. Livros recém publicados, como o de Williams, estão aumentando de número cada vez mais e a atenção do público já está captada (como o provam dezenas de fóruns de discussões na internet).

Apesar de o episódio parecer até satírico, assim o pensavam as ameças pré-'11 de setembro' e que se mostraram muito verdadeiras, depois que cerca de 5 mil civil morreram. O governo norte-americano deve ficar atento para um ataque em tal proporção. As conseqüências dele, se de fato ocorrer, podem ser desastrosas não só para os norte-americanos, mas sim para o mundo inteiro.

Sunday, July 24, 2005

Carta 1
por Rafael

Olá, querida. Já faz muito tempo que não nos falamos, então decidi sentar-me para escrever esta carta. Venho planejando-a há algum tempo, mas sempre me senti covarde e nunca pude começar realmente esta carta; agora, alguns dias depois, consegui reunir a coragem sufiente para escrever.

A primeira coisa que me atrapalha é examatente a que era a mais fácil de todas, no nosso tempo: sobre o quê irei falar? Vê: esse não sou eu, eu sempre falei bastante, conversei com você; sempre ouvia seus problemas diários, aquelas coisas insignificantes que interferem no nosso dia a dia; sempre deixei que você falasse o que queria para mim, e eu nunca interrompia. Agora, sentado só aqui nesta sala – você se lembra da sala, não? Estou na mesa, com a luz de uma pequena luminária iluminando apenas esta branca folha de papel; desde que fora algumas coisas mudaram por aqui: o sofá já não é mais branco: coloquei um azul no lugar, porque o branco me faze lembrar você; não acendo mais a luz por cima da mesa, deixando seu lugar no escuro, pois era ali que comias, sorridente e elegante, a comida que nossa criada fazia: para que não me abata a cabeça, ela permanece no escuro, exceto à luz do dia; a criada, mesmo, fora embora, depois explico o por quê – então, sentado na sala, a nossa sala, sinto como se não conseguisse mais falar de nada, nem mais aos amigos que você tanto apreciava; alguns deles, veja!, casaram-se; outros estão como eu e outros estão felizes, mesmo sós.

A palavra me falta, assim como você me falta. Na verdade não sei bem o motivo pelo qual escrevo, pois provavelmente esta carta não irá sair dessa mesa; o pó que o tempo, lento, deposita sobre a folha irá recobrir nosso passado. Sinto falta dele. Com ceteza. Sentes também? Sou egoísta de achar que não, que nosso passado em você se apagou, como a vela que se apaga quando chega ao fim. Serás a vela e eu a chama? Ou és a chama e eu a vela? Não sei – tudo isso é muito estranho, tudo está muito estranho agora.

O piano de carvalho, aquele que alegrava nossos Natais e anos novos – este sim é usado. Toco todos os dias, posso até dizer que fiquei bom em sua infinda jornada de aprendizado. Como todo o resto, a música mudou. Deixei nosso Scott Joplin de lado, seus regtimes não mais animam as cordas do piano; estas, depois de brusca mudança, amoleceram-se e entristeceram-se. De Joplin passei a Chopin – incrível como esse grande mestre invoca os sentimentos mais escondidos e refreados da minha alma: sinto-me livre, como se ao ar passasse minhas mágoas, minhas tristezas, meus encantos, enfim. As notas graves dos noturnos invadem a clareza e o luz fulva do sol, e ela se apaga, porque eu me apago. Ainda resta um pouco daquelas melodias de nossa vida. Mas elas não saem do piano, não. Elas estão presentes em cada canto da casa (alguns dias em alguns deles sento-me nesses lugares, como se com isso eu pudesse – e esperasse – ouvir o toque de mão na porta, tão característico seu que ainda o escuto quando vou dormir, ou mesmo no meio de uma música que dedilho no piano), em cada espaço vago da casa, ou que a casa reservara para mim. Às vezes penso na casa: sinto como se ela soubesse e antevisse o que minha vida seria, e logo se adaptasse à minha nova vida, ao meu novo estilo; os degraus da escada sempre descem, como minha vida, choram e se espelham no meu próprio e interior-exterior tormento. Chopin, felizmente, dá-me o consolo de que preciso.

Já o sofá era demais. Quantas e quantas noites passamos ali, espraiados nas largas almofadas brancas que colhiam nossas cabeças! Não agüentei, absolutamente, e resolvi que o removessem de nossa casa. A televisão: não a ligo há mais de quatro meses. Simplesmente não sinto vontade de ver o que acontece no mundo, o que se passa com os outros, gosto apenas de ver o que se passou conosco e o que não se repetirá. Nada se repete, eu sei, como você mesmo dizia, mas tudo se recria, como eu o digo agora. Meu tormento aumenta quando sei e vejo que nada daquilo que poderia ter sido, será; e nada daquilo que foi, recriar-se-á. Apenas sinto minha alma esboçada, como se não estivesse completa, como se não fosse algo bom, e sim algo que me consumisse totalmente por dentro, por fora, por todo lugar.

As ruas, evito-as. Vejo pessoas andando através da janela – e aqui causa-me o maior pesar, pois fora na janela que começamos e ali... ..., ..., terminamos – essas pessoas andam para lá e cá; que será que pensam? Será que sofrem? Será que estão alegres? Se bem que esses últimos são os mais fáceis de se detectar, quem me dera!, ao menos um segundo a mais... Quando chove, sento-me ao pé da janela para ver os caminhos argênteos da água na janela: a cidade, ou a disposição das casas, tem um imenso poder de fazer minha mente reminescer. A água cai, assim como eu caio, dentro de mim; carros passam cautelosos, pessoas passam correndo, um animal aqui e ali: todos eles têm um propósito, todos eles têm um destino, e eu estou sentado na janela. Não tenho destino, ou, porém, já esteja ao fim do meu destino: estou em casa, em nossa casa. Não! Não cheguei ao fim! Você não está presente!

Soube logo após sua partida que estás novamente casada. Sinto-me feliz; não, não por você, mas pela outra pessoa. Terá uma ótima e inefável companhia, sem dúvida. Não sinto por você, pois, talvez, irás fazer o mesmo que fizera comigo a ele. Logo, sinto pena dele, isso sim. Mas não a culpo, nem o culpo. Talvez eu devesse me culpar, ou não; não sei ainda ao certo o que ocorrera, e nem quero nem desejo nem penso nem ligo nem me apresso nem desejo saber. Que permaneçam ocultos os motivos! E, no entanto, não deixo de pensar de pensar de saber de ligar de me apressar a saber; o que eu fiz de errado? Dizia-me que eu era o homem de sua vida. Dizes tu também para outro? Amoleces o coração honesto de alguém e também o jogará fora? Será que, pelo seu preconceito, achaste que eu seria algum tipo de vadio como tantos outros por aí?

Não sabes, e isso não é só contigo, que ainda há pessoas de bem, que se escondem por trás do mal para que possam ser intergrados à sociedade, que demanda pessoas desonestas, pessoas más (não em todos os sentidos, mas você sabe no qual eu falo); e então, quando algum honesto lhe aparece, parece-lhe fraco, indisposto e atencioso demais. Nunca entendi nos seus xingamentos, nos seus momentos de raiva, por quê dizia sempre que eu era atencioso demais. Não era isso que procuravas? Não é isso que procura toda a mulher? Tenho hoje minhas dúvidas! E o fato de falar de ser ‘romântico’. Sempre li vi ouvi que as damas de nossa sociedade depravada apreciam um bom cavalheiro. Não fui cavalheiro o suficiente? Não tens o direito de o negar! E é isso o que acontece! As pessoas de bem, sentimentais sem ser execráveis, são negadas! E o que resta a eles? Sabes! A melancolia. A mesma que me abate agora; aquele sentimento de ‘e se eu tivesse sido feito falado agido repreendido xingado’, menos ‘amado’ demais? Vivera eu, então, num mundo de sonhos, em outro planisfério, num mundo onde a ilusão predomina acima de qualquer coisa, acima de todas as coisas: em um mundo onde eu achava que verdadeiramente me amavas queria apreciava desejava, e não apenas falava nisso tudo, como quem nada quer. Dei-te o mundo, dei-te o que sonhavas, e pretendia dá-lo mais, porém foste antes que pudesse ter tido a sorte que nunca terás! Dei-te, enfim, minh’alma, como escrevem os poetas – esses sim sabem como me sinto. E tu ficaste com ela, guardaste-a num baú, com uma imensa combinação, que nunca mais será aberto, que nunca mais terá o prazer de ser aberto. Esse baú, minha amada, é minha caixa de Pandora. Ali está minha alma, ali estão os males de nossa casa; ali ficou a minha vida.

Ética

Lendo as notícias diárias na Internet, uma frase do senhor Luís Inácio da Silva chamou-me a atenção:

"Quero dizer para vocês, meus companheiros, que nesse país de 180 milhões de habitantes pode ter igual, mas não tem mulher nem homem que tenha coragem de me dar lição de ética, de moral e de honestidade. Nesse país, está para nascer alguém que venha querer me dar lição de ética".

Gostaria de saber se alguém chegasse e perguntasse ao dito senhor: "Por favor, defina-me ética..", duvido que saberia responder sem uma daquelas folhas de discurso que alguém letrado sempre prepara para o dito senhor (percebe-se quando o discurso é próprio do dito senhor quando fala-se do imenso litoral da Bolívia; não, senhores, isso não é invenção minha). Um homem que clama não saber da imensa 'rede de corrupção' (já uma instituição, com registro em cartório) não sabe governar, pois não tem controle sobre seus companheiros.

Sem querer deixar longo esse texto, devo dizer que muitas pessoas que seriam capazes de definirir 'ética'; mas, para quê perder tempo tentanto explicar: ele não entenderia de qualquer maneira!

Saturday, July 23, 2005

Petrarca e Liszt no Soneto 104

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
et temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra il cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto 'l mondo abbraccio.

Tal m'à in pregion, che non m'apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m'ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.

Este é o soneto numerado 104 no Canzoniere de Francesco Petrarca, o criador do soneto. O soneto, impregnado de dúvidas e desconsolos por parte do "eu" lírico, inspirou em Liszt (século XIX, portanto, na fase romântica da música dita 'clássica') a composição de uma de suas mais belas obras.

De extrema e complicada execução, a obra (que está na coleção "Deuxième Année de Pèlerinage", volume 43 da excelentíssima gravação de Leslie Howard pela Hyperion) tem caráter sutil e melancólico, presente em todo o soneto. A música inicia-se com um adagio crescente, que culmina em um clímax, subitamente descendo a uma cadência completamente fora de tempo regular em appogiaturas lentas. O início da linha melódica dar-se-á na segunda parte, de complexa composição e que requer extrema habilidade do pianista (Bolet e Horowitz tocaram-na perfeitamente). As quiálteras da mão esquerda entram em conflito com os arpejos constantes da mão direita, que dão toque de continuidade na melancolia do "eu" lírico-musical. A repetição de notas insinua a continuidade da lamentação do poeta e do piano.

Após esta segunda parte, a música atinge o clímax em seu ponto médio: acordes de três a quatro notas, cadências muito rápidas (que parecem realmente sair de um subterrâneo da melodia para se impôr na música) e a mudança para fortíssimo dão esse efeito magnético à música. Apesar desse estrépito, a indicação na partitura mantém-se sempre como sempre appassionato, fazendo com que o pianista se esforçe ao máximo a passar a impressão de paixão que o poeta sentira no poema.

O final mantém-se dúbio, com os constrastes entre notas agudas e notas graves, exploradas muito por Chopin, e que Liszt dele as imprestara. A composição não termina, deixando no espaço ainda um resquício do que o poeta narra à sua amada, explicitando-o no final do poema: "
in questo stato son, donna, per voi"...

Crime e Castigo (Dostoevski)

Dostoevsky destaca-se como um dos maiores escritores da literatura mundial do século XIX. Consagrados pelos críticos e muitas vezes amado pelos leitores já em sua primeira leitura, seus romances distinguem-se pelo caráter psicológico pelo qual os personagens são apresentados. "Crime e Castigo" fundamenta-se nesse princípio.
A narrativa (endógena e exógena) centra-se na figura de Rodion Romanovitch Raskólnikov (chamado mais por esse último nome). Seu nome deriva da palavra russa raskolnik, que significa "dividido" (caracterítica presente em quase a totalidade dos pensamentos da personagem). Logo de início, um dos temas retrados pelo autor se desenvolve: Raskólnikov acha-se uma espécie de 'super-homem', um ser 'extraordinário' e, assim, posto acima das regras e concepções da maioria dos homens. Logo, torna-se um alienado à sociedade. O exemplo marcante desse sentimento inerente ao personagem é um artigo que escreve no qual se justifica certos tipos de crime, dependendo das circunstâncias em que esses são cometidos e seu propósito final (lembrando a frase nunca dita e atribuída a Maquiavel: "os fins justificam os meios").
Outro tema abordado no brilhante romance é o niilismo, presente na Rússia na época da composição da obra. Consiste, condensadamente, na negação da família (Raskólnikov por várias vezes evita a companhia da mãe e da irmã Dúnia, que papel importante faz na narrativa) através da distância relativa entre o personagem e seus parentescos; rejeita as ligações sociais, desprezando a idéia de alma e apegando-se ao mais estrito materialismo. Também, muito notável no romance, o utilitarismo, ou seja, a idéia da finalidade de algo depender do bem que esta traz à humanidade (Raskólnikov defende um crime, dizendo que um criminoso que fora morto é um problema a menos na sociedade); presente na personagem central, o afastamento das emoções e da sociedade, inscritas no livro em pequenos detalhes, tais como a posição em que se encontra Raskólnikov: isolado no bar, no canto da sala, com aparência tímida; a idéia de sentimento e emoção também o personagem rejeita, pois no romance há, por parte de Raskólnikov, tal desprezo e indiferença pelos sentimentos dos outros (e a certo nível com os seus mesmos) que às vezes o modo como se expressa é rude e intempérico. Obviamente há exceções, como no episódio da carta, no ínicio do romance.
Há motivos apontados pelos críticos que fazem com que as pessoas ajam da maneira como o fazem no livro. Cita-se a pobreza presente na Rússia, como se nota no decorrer do romance, descrevendo paisagens decadentes, imagens rudimentares (prédios velhos, decadentes) e dá-se imensa importância ao dinheiro (notar como as pessoas e, principalmente o chefe de polícia, fica escandalizado com a doação do dinheiro dado a Raskólnikov por sua mãe ao enterro de um homem que andava pelas ruas embriagado e fora atropelado por uma carroça).
O romance se passa na cidade de São Petersburgo ("onde o sol se põe às 21 horas e nasce às 23 horas") mas essa é um mero plano de fundo para a narrativa. O verdadeiro local onde a narrativa se encontra é na própria mente de Raskólnikov, na descrição de seus pensamentos dúbios, divididos, mascarados e conflitantes. Exatamente aí o autor revelara-se brilhante em sua obra. A tese do autor não é analisar o crime ou mesmo o castigo em si, mas sim o tempo decorrido entre um e outro; a mente de uma pessoa que deve suportar o imenso fado de carregar consigo e sentir-se perseguido sempre (alguns psicólogos chamam esse estado de 'paranóide'); tanto é que o crime se realiza na primeira parte do livro e o castigo vem centenas de páginas depois. Alguns críticos defendem a opinião que o 'castigo' é a própria condição de Raskólnikov, a de viver em constante deturpação mental.
A obra é considerada um clássico e merece a leitura prazeirosa. Há várias edições disponíveis no mercado, das mais baratas e acessíveis às mais caras. De qualquer maneira, o leitor apega-se ao livro de tal forma que não consegue largá-lo, mesmo já desconfiando o final da história (que marco, com convicção, ser o menos importante de tudo); o desenrolar dela no modo de escrita que empreende Dostoevsky é o mais impressionante. Um clássico imortal.

Rafael

Honoré de Balzac - A coisa em Ghent

Um estranho fato ocorreu em Ghent enquanto eu estava lá. Uma senhor há dez anos viúva jazia em sua cama, atacada por uma doença mortal. Os três herdeiros insignificantes estavam à espera de seu último suspiro. Não saíam de seu lado por medo que ela desse seu testamento ao convento de Beguins, pertencente a cidade. A mulher doente manteve-se quieta; ela parecia cochilar e a morpte parecia se espalhar gradualmente por seu mudo e lívido rosto. Podes imaginar aqueles três parentes sentados em silêncio pela’quela meia-noite de inverno ao lado do leito dela? Uma velha enfermeira está com eles e ela sacode a cabeça; o doutor vê com ansiedade que a doença alcançou seu estágio final, e segura seu chapéu com uma mão e com a outra gesticula aos parentes, como se para dizê-los: “não tenho mais visitas a fazer aqui”. Por entre o grave silêncio do quarto é ouvido o fraco som suave de uma tempestade de neve que bate contra a proteção da janela. Por medo que os olhos da mulher que perece possam ser atingidos pela luz, o mais jovem dos herdeiros havia posto um amparo na vela que estava perto da cama a fim de que o círculo de luz mal pudesse chegar ao travesseiro da cama mortuária, da qual a doentia e amarelada aparência da mulher doente fosse notada como a figura de Cristo imperfeitamente folheada a ouro e fixa em uma cruz de prata corroída. Os raios trêmulos espalhados pela chama azul de um fogo estalante era assim a única luz desta sombria câmara, onde o resultado final de um drama estava para findar. Um pedaço de lenha subitamente rolou do fogo ao chão, como se fora o presságio de alguma catástrofe. Ao som disto, a mulher doente rapidamente levantou-se a uma postura sentada. Ela abriu os dois olhos, claros como os de um gato, e todos os presentes a fitaram em espanto. Ela viu a madeira avançar, e antes que qualquer um pudesse ver, um movimento inesperado que pareceu ser motivado por um delírio: ela pulou da cama, pegou as varas e jogou o carvão de volta à lareira. A enfermeira, o doutor e os parentes apressaram-se para assisti-la; pegaram a mulher que morria em seus braços. Colocaram-na de volta à cama; ela pousou sua cabeça sobre seu travesseiro e depois de alguns minutos morreu, mantendo os olhos fixos, mesmo depois da morte, naquele pedaço de madeira no chão que fora marcado pelo toque incendiante. Mal havia a Condessa Van Ostroem expirado quando os três co-herdeiros trocaram olhares de suspeita, e pensando não mais em sua tia, começaram a examinar o chão misterioso. Como eram belgas, seus cálculos foram rápidos como seus olhares. Um acordo fora feito em três palavras murmuradas em voz baixa dizendo que nenhum deles deveria deixar a câmara. Um servente fora despachado para chamar um marceneiro. Seus insignificantes corações batiam com excitação à medida que se reuniam em torno do chão de tesouro, e observaram o aprendiz dando a primeira batida com seu machadinho. O chão fora cortado.
“Minha tia sinalizou”, disse o mais jovem dos herdeiros.
“Não; fora um mero tremor de luz que dera essa aparência”, retrucou o mais velho, que mantinha um olho no tesouro e outro no cadáver.
Os aflitos parentes descobriram exatamente no lugar onde a lenha havia caído um certo objeto artisticamente envolto em gesso.
“Prossiga”, disse o mais velho os herdeiros.
O martelinho do aprendiz então trouxera à luz uma cabeça humana e alguns estranhos pedaços de roupa, as quais reconheceram como sendo do nobre que toda a cidade acreditava ter morrido em Java, e cuja perda fora amargamente deplorada por sua esposa.

Traduzido por Rafael