Escritos

Sunday, December 03, 2006

Querida,

Veja a data da última carta que coloquei na minha gaveta. Fevereiro... um bom tempo. Não vou mentir para você: não consegui escrever cartas a você nos últimos meses. As palavras não vão para o papel, as palavras ficam encalhadas na minha garganta e tudo o que quero é gritar. Gritar bem alto. Gritar como se fosse o último grito, de desespero, de ódio, de paixão. Mortal, como garras de uma águia a me pegar, a presa, acuada em seu canto mais fechado, mais escuro, mais insalubre. Sinto gosto de sal enquanto escrevo isso. Mas não se sinta mal: esse gosto me vem à tona pois minha alma entrou no meu corpo, minha alma que já está se desfazendo e continua a cada dia, pontualmente, a se ferir.
Ainda que todos os valores que dizem ser bons desse mundo viessem a me levantar, eu insistiria em cair, pois é o patamar no qual... você desapareceu, e aparece: para mim. Aparece n'um mais elevado, lá em cima daquela serra, no topo daquela montanha, iluminada, como um anjo que desce à Terra para aqui a paz instalar. E você instala a paz em minha alma, instala o ser que falta ao meu ser, ao meu modo de viver e de sentir as coisas. A natureza me acompanha, e tempestade torrencial se faz em meu ínfimo corpo, cai como pedras de gelo, chocando-se nele com uma força vingativa, com uma força que se desdobra em risos porque assim é que se sente.
Sente-se, leia isto com carinho. Não pense que essa solidão me faz mal. Não: essas palavras só refletem um pequeno e passageiro momento. É o momento no qual me desprendo, solto-me e, com toda a força, vomito todas as mágoas que se acumulam. Perdoe o uso da forte palavra, mas é a que mais se encaixa nesse contexto. Nos outros dias, enfim, vivo com você. Vivo sempre, e, assim, vivo forte.
Tenho tantas coisas a lhe falar. Mas as guardarei para quando eu precisar com você conversar. As cenas repetir-se-ão; os pratos permanecerão cheios, pois falaremos até perder a fome, ou comeremos sem proferir som. Ficarei olhando seus olhos. Ficarei observando seu semblante, ainda resplandecente da juventude que desfrutamos. Ficarei endeusando seu ser que tanto me magoou. Ficarei lembrando dos beijos que eu trocava quando me tocava e trocava. Não é possível. É um beco sem saída, uma flor sem perfume, matas cinzeladas pela minha passagem, dias vestidos de cinza-escuro, torrentes chuvas verticais. Isso tudo sou eu, que por fim era você. Não a percebi durante os meses. Perdi-a.
Meus novos amores estão escritos. Posso tê-los nas horas mais insólitas dos dias e das noites. Posso revê-los sem antes telefonar. Posso saber como eles estão só por estarem aqui. Posso mandar tudo se calar quanto eu bem entender. Posso amar como eu sonhava.
Sonhava.
Meus dias são longos, e as noites curtas. Perceba a hora avançada: quatro horas. Passei as últimas cinco com seu anel rodeando meu dedo, eu o olhando atentamente, para ver se dali eu conseguiria extrair o mínimo de brilho; o raio de luz que fosse. Em vão. Nada se concretiza quando muito se quer. Isso vale para tudos e para todos. Anuncio a brevidade de meu ser, entenda-o como quiser.
Podem parecer amargas minhas palavras, mas não o é minha alma. Ela é sempre o que para você foi: uma alma zelosa, sutil, seleta, fulgurante, como você bem a merece. Esqueça o que de ruim pode haver nela...
Deixe que eu pense [...] ...

Wednesday, February 15, 2006

Carta 7

Querida,

Uma sombra atravessa o que eu sou hoje. Mais uma vez, nao saí de casa, como sempre fazíamos e o vizinho veio perguntar-me por quê eu fico na janela até tarde da noite, olhando para o gramado do nosso quintal. Olhei-o o rosto e nada respondi. Não há resposta a tais perguntas; ela foi embora há quatro meses, junto com você. O vizinho ficou ali, imóvel, olhando-me com uma cara de interrogação, até a expressão mudar para consentimento e ele se despedir. Vi-o indo em direção a casa, abrindo a porta; aliás, a porta sendo aberta para ele. Era sua esposa e sua filha; esta estava em perfeita felicidade, suja de tinta desde os joelhos até os pés. (Nosso) vizinho trocou uma palavra com a esposa, que olhou em minha direção, por detrás do vidro, com uma expressão de tristeza no rosto. Fechou os olhos, exclamou algo para o nada, ou para tudo, e entrou em casa.
Sete semanas. Faz sete semanas que você não está presente fisicamente aqui. A geladeira ostenta um bilhete seu - o último bilhete seu - preso com um ímã. O seu bilhete de despedida: seu novo começo; meu eterno fim. Como vai sua vida? Como vai o trabalho? Árduo? Imagino. Você sempre foi dedicada; às vezes, lembro, que idiota que eu era!, ficava irritado pois você tinha de terminar seja lá o que estivesse fazendo para ficar junto a mim, e muitas vezes eu ia para a cama sozinho. Acordava e você já tinha se ido novamente. Talvez esse foi o início do que se passa agora em minha alma. Esse vazio, essa solidão, as oportunidades que eu perdi e que me fazem doente até hoje. Eu lhe dava tanto amor, o que fiz de errado?
Conversei com um amigo na terça-feira. Ele disse que eu parecia dez anos mais velho. Errou. Estou, definitivamente, vinte anos mais velho. Falou do trabalho, que larguei, da esposa, que eu perdi. Falou e falou. Perguntou-me se eu voltaria a trabalhar, não sei, eu lhe disse. Ele tentou me animar, dizendo que a vida continua. Decerto, ela continua: o sofrimento aumenta a cada dia e então eu percebo como a vida passa devagar. Não quero dar cabo nela. Enfrentarei minhas angústias, meus pesares, meus medos, minha solidão. Através destas cartas, que você não lerá. Essas cartas, de certo modo, mantêm você aqui, mantêm você perto de mim, mantêm eu mesmo perto de mim...
Perdi-me no meu interior, perdi minha vida. O que levo são dias após dias de lassidão física, de dor emocional, de pesares imortais. Tentei Deus, tentei tudo: inútil. A única cura para meus sofrimentos está andando por aí, braços nos braços de alguém que, não sei por quê, soube mais que eu a atrair. Vai, nuvem negra, passa o dia, mas deixa o mal que me arrasou. Vai, chuva forte, lava o dia, e deixa a enxurrada que me carregou. Vai terreno seco, seca a vida, e deixa o não que me matou...
Tive oportunidade de amar outra vez uma mulher nessa semana: inútil. Meu amor por você é infindável. Levávamos um monólogo a dois; nada que ela dizia me alentava a alma, enegrecida e ferida por uma imagem sua. Gostei de ela ter tentado, mas não dava certo. Parecia que eu estava fazendo algo errado. Um amor nunca morre, desvanece. E, às vezes, levam anos para isso acontecer.
As lágrimas estão borrando a folha, por isso vou parar por aqui. Vou voltar para o desvão imenso da minha alma, meu lugar escuro, meu lugar escondido. E ficar lá, sentado naquele canto que se chama solidão, e chorar mais a minha sina. O lugar dos desalmados fica em sua própria alma.

Rafael.

Sunday, February 12, 2006

I'm not kidding... I love to surprise people, and you may expect from me A LOT of that (I think you'll have one already on Monday). Surprises are things which make difference on our lives. Do you dream and have hopes? I really didn't expect that. I thoughtyou were really into that guy.
About that, sorry things didn't work out for you; really I am, 'cause the only thing I want from you is your happiness. However, the fact that you are single... hehe... gives me an enormous ray of hope in my life. Don't worry about your heart being broken. Someone can fix it up, and I am really interested in doing that, if you allow me to. I know things are going on too fast, but let's see things in this way: how many more surprises can we discover if we know a little bit about each other?
I'm not too much for you: you are everything... will I handle that? Someone as special as you... it's like an astounding dream, a movie scene: you never expect that being true, and when you came up to me, out of nowhere, I didn't believe it. But now I know, and I feel it's right: you're here, not in my dreams as you were before; and the only thing that was left for it was a personification of those endless dreams. You're the one. You're that. You're everything I was hoping to find in my life. On Monday we'll meet, and I'll make a request from you. But I won't tell you now what's that about, you'll discover on Monday, when I'd be looking into your beautiful black eyes, holding your little precious hands. Will you give me that chance?

I'm afraid of only one thing: I've been going through your communities on Orkut and thinking about somethings you've said to me... I'm afraid of disappoint you: and I'll tell you right now.. I just came out of a hard losing-weight process... and am good and thin (I have a large back, though...) but I'm still not ready. If you, in the first month don't worry about that it'll be okay. That's what I am most afraid of: you look at me and lose all that feeling you say you have about me. It would be not the first time in my sad life but it'll be one more dismayed moment. I'll ask you to wear something that I'd be able to distinguish you from all other girls that will be there, even though I could recognize you far and far away... I'm not interested in meeting those girls; I'm interested in meeting you. As we both like songs: "baby, you're the one", Elton John; "my love, there's only you in my life, the only thing that's bright.... I'll be a fool for you..." Lionel Richie.... I hope our dreams would come true. Even the clichès songs: "every night in my dreams... I see you I feel you".. that's absolutely true. YOU TAKE MY BREATH AWAY.

I don't know if I am being too much of a crazy fool about you, but I feel happy that way.. The phrases you wrote me: how can I forget? YOU'RE everything I could expect from a girl. Like you, and our coincidences dont't end there: it was the best moment for you to show up in my life. Too much for me, but I work hard for what I want. And, in every word, I want you in my life. You'll decide that.

I'm not an illusion, I'm right here, and I am waiting for you.
Always.

À Re. F.

Quem é você? "Você, que não encontro mais... os beijos que já não lhe dou... fui tanto pra você e hoje nada sou." É triste viver assim, na realidade. Mas, quem é você? Você chegou na minha vida como se alguém, ou algo superior, tivesse pegado você pelas mãos e depositado defronte a mim. A pergunta já não sei responder. Três dias, três dias mágicos, incríveis, experiências novas, vaticínios preparados? Não, destino? Acredita nele? Obra do acaso?, mera coincidência?

Elas são demais, e em grande profundidade. Posso dizer que sou outro, um outro renascido das cinzas que minha alma era. Grato a você por essa mudança. Essas perguntas... precisam de resposta? O que precisa de resposta se é perfeito? Eu a acho encantadora demais. Decepcionar-me contigo? Difícil... Mais fácil é o contrário acontecer. Não sei se sei a amar do jeito que você merece; pois você merece: não há no mundo alguém como você. Fomos "feitos um para o outro"? Não sei. E é nesse "não saber" que jaz o mistério mais absoluto e incrível que a vida pode nos proporcionar. Você mudou meu jeito de pensar, meu jeito de agir com os outros... fez-me crer e voltar a pensar que há alguém no mundo com um carinho para me dar, e que seja independente, forte, aprazível ao mesmo tempo; você, neste curto tempo em que nos conhecemos (pouco conhecemos, e confesso que adoraria continuar a conhecê-la por um bom tempo), reviveu uma parte de mim, um "pedaço de mim" que achei que havia morrido, pois eu "trago o peito tão marcado, de lembranças do passado" e você, se espaço me der, saberá a razão. Aliás, essa música traduz um pouco de mim. Conheça-me, eu lhe peço: "novos dias tristes, noites claras, versos, cartas, minha cara..". Você, sem querer, ajudou a reacender uma vela que não brilhava há muito em meu peito estraçalhado por negações e rejeições das piores maneiras possíveis.

As frases que você me disse, elas não sairão tão depressa da minha mente. Nunca, nunca antes, e não pense que é brincadeira, nunca ninguém me havia dito certas palavras, certas coisas que eu li, de modo sincero (como pude a notar), meus olhos marejavam, minha alma suspirava. Mas, ao mesmo tempo, minha alma atormenta-se, pois de esperanças vivi cheio durante toda minha vida, e elas todas fracassaram, esvaíram-se como pó pelo ar, sem deixar mais rastro, a não ser uma cicatriz que não desvanece: é permantente. Suas palavras maquiaram algumas dessas cicatrizes, algumas dessas feridas que ainda estavam abertas. Isso, em dois dias. É algo que não aconteceu comigo, e acho bom demais para ser verdade. Como? Essa é uma pergunta sem resposta. E pretendo não a procurar, deixe que o mistério da passagem da vida a responda por mim, por você e, quem sabe, se eu lhe agradar, por nós. Não quero, de modo algum, que se sinta em posição defensiva em suas atitudes. Faça o que bem entender: diga "não" se não quer, diga "sim" se quer; só não me ponha à espera em um "talvez" porque tudo na vida, com o sábio tempo, desaparece (menos um amor muito grande, o que não é impossível: passei a acreditar em cada aspecto da vida). Não quero que se sinta pressionada de modo algum, deixe que eu fale, é um modo de tirar da minha alma o peso que eu mesmo coloco nela. Se quiser, nem precisa ler essas frases, que para mim significam a vida, mas para você, podem ou não nada significar a não ser um extremo romantismo ou ridículo de alguém que ainda não sabe propriamente o que é amar.

Não sabe o que dizer ao me ver? Pois que não diga nada: deixe que os olhos se entendam. Eles têm uma linguagem própria, uma conexão com nosso íntimo subconsciente. Olhos não mentem, e "olhos nos olhos", sem palavras, às vezes, equivalem a um livro inteiro. Pois confesso que talvez não fale nada ao ver você. Sou tímido, sabe disso. Vou seguir minhas palavras e deixar que meus olhos repousem nos seus, e eles irão falar as primeiras palavras: vão apresentar-me a você (e vice-versa) de um jeito que não se expressa por palavras, de uma maneira inefável. Olharei para você, a encarnação do sonho; o que eu esperei, sofrendo, a vida inteira.

Não sei dizer, nem posso adivinhar a força que essas palavras aqui escritas fazem em você. Será que a afetam de algum modo? Ou apenas pensa que eu seja mais um dos incontáveis "últimos românticos" a falar de amor com você, em uma quase declaração? Às vezes, pego-me pensando em você... faço planos, sonho com um futuro nosso; no entanto, esses sonhos desvanecem sempre, pois sei que, talvez, não goste disto que escrevo, ou de algo que eu faço. Quem me dera estar com você para ouvir o que você tem a dizer disso!!

Sinto-a tão perto, mas tão longe. Perto fisicamente, longe de outros mod0s. Estamos, afinal, no mesmo espaço, no mesmo lugar. Ainda assim, minha mente pessimista não crê que você seja real, que exista. Não que eu lamente minha vida, meu passado e nem desmereça você: um dia, explicarei-a tudo. Você se faz perfeita sob todos os aspectos, desde o emocional até o gosto por certos filmes, músicas, estudos, trivialidades. Isso me move, junto às suas palavras, a um plano maior, um plano em que me imagino feliz, ao seu lado (quem sabe?), caminhando juntos na jornada da vida, mesmo que essa vida dure uma semana: não "proponho casamento a você na primeira semana" (palavras suas). Apeguei-me aos seus detalhes... não é como você diz que é: acho você linda, estupenda. Só não creio no contrário: eu? Só rindo mesmo! Não é feia, é mais linda do que a maioria: você reune em uma só qualidades invejáveis, qualidades essas que, se metade desta cidade tivesse, Éden não estaria muito longe. Possui defeitos? Decerto. E digo-lhe mais: desejo conhecê-los profundamente. Possuo defeitos? Decerto. Se você quer os conhecer, não sei. Você apenas me dirá.

Decepcionar contigo? Não. Certamente não. Vi-a, e, como eu disse, "não me faças apaixonar por ti, sou precipitado". Talvez eu tenha precipitado; já, sim. E não me arrependo, nem me arrependerei disso: serei grato para sempre. Há um ról de pessoas que figuram as melhores: você foi a mais rápida a entrar nesse ról, surpassando muitas pessoas que eu achava que me ajudavam. Um dia, se quiser, explico o porquê. Só não me repita mais que eu me decepcionaria com você: isso não é verdade. Talvez o contrário seja verdadeiro. Você me conhece pelos meus pensamentos; odeio mentiras, então cada linha daqui é verdadeira, cada linha deste texto é uma porta para a qual você apenas tinha a chave, nem eu a tinha. Já a elogiei em nossas conversas, portanto não preciso repetir aqui (apesar de querer fazê-lo).

O futuro nos dirá o que irá acontecer. Se será bom ou ruim, não cabe a mim decidir. Se o resultado for bom, espere uma pessoa empenhada em lhe dar o melhor de tudo, um amor surreal mas concreto, com limites e espaços para cada um, pois assim é que se vive. Não quero fazer propaganda de mim mesmo, não. Encare isso como uma conversa, a dois, a sós, em um daqueles bancos em que, talvez, passaremos a tarde juntos.
Repito: não se sinta pressionada por isso que lhe escrevi. É basicamente minha alma escrevendo, não minha mente. A mente consciente só trabalha as palavras na ordem certa. O que está nas entrelinhas é o válido.

Vou colocar meu email aqui, e você sabe que este texto é para você, por isso, nem mencionei nomes. Talvez... em um incerto futuro (conheceu alguém assim já?, que escreveu um texto apaixonado sem a conhecer?).
É: rafaelrocca@gmail.com

A vida guarda surpresas, e você foi a melhor surpresa que até hoje me aconteceu. Espero que me escreva algo ou que leia isto antes do dia 13, para que lá você saiba um pouco mais de mim. Você... é... tudo... o que... a vida... quis... me... mostrar... DE EXCEPCIONAL!

Beijos.
R.R.

Saturday, February 11, 2006

Foram tantas as palavras que escreveu a mim. Palavras curtas, sem nexo; palavras irmãs, palavras ardentes, palavras sãs. Foi-se assim. Trocamos as primeiras palavras, reais, íntegras, inteiras. Não sabíamos o que resultaria daqueles espaços vagos que existem e resistem, que atentam e agüentam, que carregam nas costas doloridas um significado mais do que imenso. Eram palavras tolas, palavras adolescentes, palavras subseqüentes palavras de amor. E um porquê por trás disso? Não, apenas do amor o vício, que me fez escrever palavras a você.

Passamos o tempo e as palavras, nas costas depravadas de seus significados, trocaram de papéis. Os elogios, elegias, que nunca deixei de fazer: você desprezou. Então suas palavras mudaram, aprofundaram-se em pérfidos significados. Eu mantinha minhas palavras intactas, eu não me esforçava para a elogiar, dizê-la sensata e firmemente que a amava. Por nada, as suas e as minhas palavras mudaram de dicionário, algumas delas guardadas no forro do nosso armário, num retrato emoldurado, amarelado pelo tempo passado juntos. O que vale mais que mil palavras se calou. Arrefeceu os sentimentos e não perdoou. Então, pouco a pouco, eu pensava, e não falava, as palavras...

Palavras que você gostava, que me falava constante a todo instante, que me amava. Todas as ilusões, os sonhos, as paixões; nosso cinema que não vamos mais; nossas noites que não dormimos mais; os sonhos que não temos mais; os planos que não se fazem mais; a vida que não se recupera, jamais. Todas as confusões, as atribulações, as exasperações, eu lidava com elas, como você queria. Fora eu fraco demais? A mais? Jamais?

E onde estáis?, minha amada. Idolatrada em minha mente por um senso sexto-sentido misterioso e tenebroso que não ouso desvendar. Bate o coração? Sim, sempre. Não, como antes. Sentes? Sou eu a bater em tua porta, querendo adentrar em tua memória, em tua cabeça. Meu espanto é perder-me no caminho do insconsciente, não de todo desvendável, senhorial. Sentes? É meu pensamento indo de encontro a ti. Poderías estar junto, aqui? Sentia feliz ao meu lado? Dizías que sim, que tudo era perfeito, que tudo era amável. Suportável.

E as palavras? Onde moram? Se moram, moram em mim; morrem em mim, angustiam-se em mim, e eu nada posso dá-las de bom, a não ser o líquido danoso do meu sofrer, do meu chamamento por ti, por si. E as palavras que você gostava? Dizia-mas sem nexo, sem... nexo... mas dizia. Outro levou de mim as palavras que eu tanto gostava? Sim, e levou também a palavra que mais me agradava;

Eu a amava.
Demais.

Querida,

Esta já é a sexta carta que eu escrevo, com muito prazer, para que eu não recaia outra vez em desespero. Queria saber mais da sua vida, queria que me contasse o que está fazendo, dia a dia, despreocupada com os detalhes da vida, com as coisas mínimas que às vezes estragam toda uma vida; despreocupada com o passado. Comigo... tudo continua a mesma rotina: amanhece, a amo; anoitece, a amo e não sei o que mais fazer... desespero?, talvez nem mais. O que me bate, à noite, quando estou sentado naquela nossa cadeira de balanço que fica na varanda, é uma saudade que se cola em mim, e não sai mais. Sua imagem vem-me à cabeça instantaneamente, e dali não sai mais.

Uma imagem, um retrato, estático, de você, apenas você; minha imagem, que estava ao seu lado parece ter sumido no tempo, como eu devo ter sumido no tempo a você. No entanto, estás aqui muito presente em mim, como aquela lembrança que você carrega da infância, uma coisa boa, ou uma chaga. Já lhe contei, algures, da minha incompleta alma: ela luta por sobrevivência, luta por desespero, por temor, e não a esquece. Jamais! Essa imagem está cada dia se renovando, tornando, assim, meus dias um pouco mais alegres, mais joviais. Mas olho para a mesa de jantar, e você não está.

Encontro-a em cada esquina por que passo, encontro-a em cada pessoa que anda e assusta com meu olhar cansado e perplexo. Encontro-a em lugares que você e eu costumávamos ir, costumávamos abençoar nosso perfeito relacionamento... "ávamos", "ávamos": que ferida em meu coração! Um dia, ele não mais agüentará, e sabe só Deus o que me vai acontecer. Talvez seja minha pena por não ter sido à sua altura, à parte do esforço, por não a amado como você, creio, gostaria; mas, apesar de tudo isso, eu a amei (e amo), eu me esforçei (e peno), eu me entreguei (e sou sua), eu me apaixonei (e vivo assim). Não importa todo o sofrimento que rói pouco a pouco meu coração, desde que esse sofrimento seja por você, de você e com você. Não ligue para me consolar, nunca me ligou, mas aqui já deixo o aviso. Deixe que eu a ame, se não posso pessoalmente, em sonhos.

Em sonhos, e nada mais.

Sunday, December 11, 2005


Triste Notícia


Infelizmente, neste final de semana, dia 10 de dezembro nos EUA, ou dia 11 de dezembro aqui no Brasil, uma notícia do New York Times chocou muitas pessoas em todo mundo. Morreu em Los Angeles o maior comediante de todos os tempos: Richard Pryor, aos 65 anos de vida devido a um ataque cardíaco.

Richard, eleito o melhor entre 100 comediantes por uma rede de TV americana, realmente tinha um nome respeitável. Era um gênio na criação de piadas para o palco, em seus stand-up shows, em suas séries de TV e em seus filmes. Serviu de inspiração para Eddie Murphy, Michael Winslow, Chris Rock, até mesmo David Letterman.

Pouco conhecido no Brasil, seus shows merecem destaque: "Here and Now", de 1983; "Live on Sunset Strip" etc. Nesses shows, Richard consegue tranformar suas experiências pessoais em piadas, tais como o uso de drogas, o alcolismo, o casamento e uma vez na qual pegara fogo no corpo todo. Falando de si mesmo, ele agradava as platéias de todos os lugares que ia.

Sua linguagem era à moda das ruas, cheias de palavrões que tornavam a apresentação mais engraçada ainda, freqüentemente brincava com a platéia, como em seu "Here and Now": falando a uma senhora de idade, "'Cause if the show don't be funny, I'll take my dick out and piss..". Todos o amavam.

E infelizmente o mundo perde um dos personagens que devem ser patrimônio histórico da comédia, especialmente em uma época em que o preconceito racial era forte e atuante, e "Rich" vencia essas barreiras através de sua majestosa performance no palco.

O céu te espera, Rich: uma homenagem dos fãs brasileiros a você, o REI DA COMÉDIA!

Saturday, November 12, 2005

O poeta

O poeta caminha com a cabeça abaixada
Olhando os quadradinhos que estão no chão;
Pensa: " ", e reflete sobre isso.
O poeta é um solitário
que está acompanhado de pessoas;
E ele que caminha é o Poeta,
que vê nas coisas o que elas têm
(desculpe-me Caeiro) de significado.

E o poeta não se sente só, por ele é em si mesmo;
Mas se sente solitário, solitário de gente, solitário de amor.
Ele é o poeta da alma, das coisas, das gentes, da gente.
O Poeta caminha pela estrada da alma..

Mas todos nós caminhamos pela estrada da alma.


RAFAEL

Sunday, October 02, 2005

Por esse amor e nada mais…

Por quanto tempo sonhei contigo
Para que pudesses vir a mim,
Contente, feliz, com esse sim
Estampado nos lábios amigos?
Por quantos momentos já não sofri
Por antecipação amores; comigo,
Tudo o que achei, que entendi,
Nada fora senão passo atrás.
Por quantas vezes não me enganei, não menti?,
Por esse amor e nada mais...


Quantas noites, em sonhos grandiosos,
Passei, acordados, perdido, ao mundo dado(s)?
Por quantos dias não senti, ausente, teu afago,
Tuas mãos a lavar minha lágrima; estrondosos,
Batimentos de meu peito,
Fortes, ribombantes, sonoros,
Ele reclama, afasta-te!, e aproxima!
Porque fora você que amei demais,
E, tu, só tu, meu amor, e só para ti, morreria, minha sina,
Por esse amor e nada mais...


Quanto, por quanto, e tanto,
Meu amor por ti não reclamou?
Pois quando pelo imenso vazio da alma ecoou
Seu doce, etéreo, soberbo canto,
Momentos de extrema alegria se fizeram,
E não se repetiram jamais; e, no entanto,
Quando lembro dos sons que se enterneceram,
Não, não posso, não conseguirei viver jamais!
Corre em minha face, somente, o pranto,
Por esse amor e nada mais...

Tantos dias fúteis, dias vazios,
Vivi preso a esse seu olhar...
Quantas vagas não contei ao mar
Para notar o tempo fugidio.
E ele, tristemente, aconselhava:
“Por que não a esperas, ou pede-a ao luar?”
E eu, como alma só que chorava:
Ó, de que vale? Se o que resta é chorar
Por que eu me alegrava? Porque ansiava
Por esse amor e nada mais...


E como se o mar me respondesse
Com um som calmo e sereno,
Fazia-se em brasa meu coração moreno,
E tudo quanto fosse só me desse.
Antes, tudo o que era lindo e gracioso,
Como pó se esvai e desaparece..
Límpido, puro e gracioso,
O mar me dizia ainda mais:
“Pois não haveria nada?” Não, não fosse temeroso,
Por esse amor e nada mais...


A noite escurecia o céu da tarde
E a Lua subia, grave, no horizonte;
Sua luz lançava olhar sobre os montes
Do atol dos solitários ao meu coração alarde.
“Ó sofredor terreno! Vê tu minha desgraça:
Vivo e amo o sol, no entanto, ao longe,
Sempre que chego ele se afasta!
Achas que sofres por amor demais?
E eu, que amo o Sol, que a mim nunca se enlaça,
Por esse amor e nada mais...


E a chorar fazes pedidos
Ingênuos, impuros, de amores lassos?
Segue seu caminho, seus passos,
E deixa a mim chorar amores perdidos!”
No cair do frio da noite gélido
A lua me envolvia com luar escasso...
E colocava-me a fitar, incrédulo,
O longe mar, calado assaz;
Por um momento quis apagar o tudo
Por esse amor e nada mais...

E quantos mais sonhos não terei
Ao pensar no que você fora na minha vida?
Quantas lamúrias não encontrarei, perdidas,
Nos abraços que não abraçarei?
Quantos luares nas soleiras
As aves encontrarão jazidas
No ferro quente das braseiras?
Não, não suportarei mais...
E, ainda assim, continuo, na mão com uma roseira,

Por esse amor e nada mais...

Sunday, August 28, 2005

Preso a sonhos, que são ilusões, preso a correntes invisíveis do pensamento, do imaginar, do fixo e do infixo, preso a todos os sentimentos do mundo e sem com nenhum deles me identificar.. como ser, humano?

Como pessoa?

Habitante?

Habitat?

Como um estandarte que é fixado em todos os lugares, para lembrar-lhe que és miserável, esquecível, esquecido, estorvado. Como aquele homem de terno no olho mágico. Enfim, atado, fixo, acorrentado, imobilizado, enfaixado, engessado a todos esses sentimentos que nem sei quê são, se são, ou se serão.

Verão.

O quente do meu sangue faz-me enjoar, faz-me pensar em mim mesmo, no que não fiz, no que deixei de não fazer, no que poderia ter feito, em mim. Tudo em mim, como um centro egoísta do mundo, tudo sou eu.

E nada sou.

Os sonhos, as imagens, as paradas, as rejeições vão-se acumulando em meu grande baú de mágoa, em minha sede de vingança, em minha ânsia por vitória. Uma após a outra, elas se curvam perante a mim, e sinto-me rei, reino dos céus, o Rei. E não há nada que se possa fazer mais, dono do mundo. Senhor de tudo. Perdido em mim mesmo.

Os prazeres que me negaram, as mulheres que eu não amei, as relações que não tive, o mundo que não conheci, o que por imbecilidade não pude (ou quis) desfrutar, o sofrimento que evitei achando o sofrer naquilo sofrível, a criação poética de meu porão.. a invenção sublime de uma paz armada, o desenvolver dela, como uma criança, que nasce e cresce só de corpo: vê ela adulta, és a imagem tua, minha querida; teu prazer e tua ruína, unidas de mãos dadas, num sobrepor fantástico de coloridos sonhos e planos que, como açúcar (ou sal) em água são dissolvidos.. e desaparecem.

Desvanecem.

Somem.

Morrem.

Dormem

talvez para que um dia alguém, que saiba entender sua alma, seus versos, seus prazeres, esta folha; alguém que não negue amor quando lhas é oferecido; alguém que saiba o valor certo dar a quem o merece; alguém que exista,

Que cumpra.

Que saiba.

Que o tenha, apaixonadamente, nesse infindo mundo que é o

Desesperar, o

Sofrer, o

Reter, o

Ter. Possuir. Egotísticamente ao outro, mas configurando relação recíproca da bondade.

Da juventude?

Da esperança?

Da fortuna?

E assim, sigo, inerte, hirto, pelos caminhos da minha alma: um corredor de luzes vermelhas se põe diante minha frente, algo que não entendo está à minha vista, algo que não.. compreendo?

Entendo?

Com que conjuro, inconfidente?

Nesse corredor jaz uma porta aberta, da qual emana luz azul-celeste. Esta luz tosca e turva refaz caminho, o caminho tortuoso de minha existência. Caminho até a porta, encosto-me nela; n’uma placa, escrito em vermelho-neon, “rejeições”. A única porta aberta do imenso corredor? Será que haverá outras portas, ainda com as luzes apagadas? Até onde vejo, não vejo; mas não vejo o fim do corredor também. Terá fim?

Será esse o fim?

Cheguei ao fim?

Fim.

Não.

Há saída, ou entrada; entro no quarto, lá dentro é claro, é dia, ofusca meus olhos: um óculos preciso para poder enxergar minha vida, entumescida pela minha fosca íris. Nada posso, porém, nada quero, em nada insisto: encaro minha desilusão de olhos e braços abertos, mesmo que a clareza umbrosa cegue-me a vista, eu adquira o mal-branco, e nada mais eu veja. Logo, estou sentado, e tudo escureceu.

Choro.

Pio.

Grunho.

Uma voz ecoa pela minha cabeça, pelas paredes, por tudo; vozes que não mais lembrava, vozes que há muito tentava esquecer ou mesmo recordar; as palavras, mesmo que eu levasse aos mãos aos ouvidos, entravam-me àlma e ali alojavam-se. Lembravam-me do ... ... ... ... das pessoas.

Das rejeições,

Dos amores jogados-no-lixo-por-pessoas-que-não-o-mereciam-, ...

Ou que não se importavam

Mas que recebiam (recebem) amor mais do que aqueles que o merecem;

E se sofre e se reparte e se humilha e se castra,

E sou e me torno, enfim e por fim...

Refém de mim mesmo.

Friday, August 05, 2005

A.M.C.

Foi bom ficar com você naquele minuto,
Partilhar as horas tão curtas daqueles segundos;
A noite que envolvia nosso amor,
Fazia com que se esvaísse nossos sentidos:
E nada víamos...

Apaixonar-se sem medo! Deixar-se dar e se entregar,
Sem ter de perguntar: por que? e então?
E dia pós dia, hora pós hora,
A cada minuto, segundo, momento, instante
Beber de teu néctar etéreo por entre os beijos mais delirantes....

E a noite não acaba, não há barulho: não há ruído,
Só a canção cristalina dos seus suspiros, profundos,
De seu peito arfante, arfante de amor,
E tudo alredor é inútil, é sem vida,
Desvanescem-se os pensamentos, e tudo fica bom.

Então fora bom estar com você, naquele minuto..
Gozar de teus lábios serenos, devagarinho.., encostar minh'alma à tua,
Fazer com que fosse eterno aquele minuto,
No qual tudo perderíamos e tudo ganharíamos,
No qual o tempo corre apressado, em câmera-lenta,
O tempo... o tempo... tempo que passou, que passa, que passará;

Seus olhos, no breu aconchegante da noite,
Raiavam verdes tal qual o raso mar, lindos;
Aquele olhar escrevia, em letras e ditava em sons mudos:
Ame-me... para sempre.

E, insistindo, eu ficava; e eu amava...
Eternamente...

Thursday, August 04, 2005

Lembro-me das largas noites passadas;
O silêncio colorindo palavras
Que, mudas, pelo olhar teu, firme entrava
Na minha alma, dolente e extravasada.

A noite era nosso catre; voz brada,
Nossos suspiros; nossa vida atava
Teu sentimento ao meu, e eu, só, lembrava
Das vozes do silêncio, já morgadas.

E como era lindo nosso vão tempo!
Quanto não agradecera minha alma!
E quão longe colocaste o tormento!

Foram épocas de inefável calma,
Época sem pesar um só lamento,
E que removera da vida o trauma.

Rafael
04/08/05

A alguém...


Sonhos eram quando achei que tinhas aceito
Plenamente dentro deste seu ilustre peito.
E teci rede de ilusões,
Que, entre dois corações,
Planejava o que seria de nós feito.

E fora assim que cometi meu engano,
Por achar santo amor que era profano.
Nunca terei na vida,
Tal vida de mágoas cheia, sofrida,
E todo o amor que disponho arcano.

Deito-me assim, em meu leito,
E passo as noites em claro, mas aceito
O que a vida me trouxera.
Como sendo o resultado d’uma quimera,
Mal pude ter o tempo, que desdenho.

E, em mim, fica aberta uma lacuna, uma ferida;
Que somente tu podes sarar, querida;
Porque, nos tormentos da procela,
Meu coração aguardara o dela,
Chegando tarde, minha alta tornou-se entrita.

Mas mil e um, mais até, planos feitos,
Para que, minha cara, eu alegrasse seu peito;
Jaziam constantes em minha mente,
Vibrantes, agudos, tensos; fremente
A dinâmica de nosso pleito.

E foste embora, sem ao menos chegar,
E atiçou sem querer prolongar;
De erros meus talvez tudo feito,
Se não há mais contigo jeito,
Devo à solidão e à tristeza me agarrar.

Longas de data são essas minhas amigas,
Que tanto colocaram minh’alma em brigas
De paixões exuberantes,
De dúvidas assaz marcantes,

E de todo meio de vida, só tu me abriga!

Sunday, July 31, 2005

CARTA 2

Por que tem de ser assim? Por que as coisas não podem se encaixar, os fatos concatenar, os objetivos condizer? Por que, quando eu menos esperava, você foi me abandonar? Ainda não entendo; e cada vez que penso mais, cada vez que reflito sobre isso, não vejo motivos plausíveis para seu abandono. Já falei para você, já fiz você ler, que não compreendo sua mudança súbita, sua atitude em relação a mim.

Não compreendo nada.

E, por isso, vou conhecendo as ruas da cidade, as casas por onde passo, à noite; paro, olho lá dentro de uma delas: ali há um casal, sentado no sofá, com os pés esticados sobre um pufe aparentemente muito aconchegante, e apenas a luz azulada da televisão ligada alumiando o quarto todo; há um sorriso em ambas as faces; mas, será que são felizes? Digo, realmente felizes? O que estaria ela pensando, ou ele, nesse exato momento? Qual a fórmula mágica para tanta alegria e compaixão? Certamente não é tão fácil de se fazer como a fórmula da desilusão, que se acha como água brota da terra por aí. Fico ali, estacado em frente a um domicílio de um casal feliz que nem conheço, melhor seguir adiante, antes que o próximo carro passe.

Em cada canto, em cada rua, em cada viela, em cada estrada, em cada vereda, há uma mágoa que ainda não foi engolida, absorvida, retirada. As casas dizem-me isso; é só olhar para elas e saberás como se vive a pessoa ali dentro. Como dizia a canção: “casas mal vividas: camas repartidas, faz-se revelar”. Conheci muita gente, e nunca falei com elas, durante essas minhas longas travessias pelas ruas da cidade à noite, perambulando errante, como se na próxima esquina eu fosse, não a encontrar, mas encontrar um pedaço que fora nós algum dia, remoto no passado, presente em mim.

Por isso, vou para casa, abatido por nada, sofrendo da dor da saudade, que é insaciável de fome, e, com esforço inefável, junto todas as coisas que podem ma fazer lembrar e as espalho sobre a cama, reduto do que fora, nossas noites quentes, frias, vivas, e mortas. Olho para cada coisa, porém a cama jaz vazia, imóvel, gelada; não há sentimento espalhado por cima dela: há sentimento espalhado por mim, salpicado em minha alma, um resto de sentir que não se apaga, ou que em mim não se apagou. Não há nada, de fato, sobre a cama. Você levou contigo tudo de real, concreto, tangível que havia em nossa casa. Só não levou o que de você em mim restou.

E dói-me lembrar de todos aqueles planos, aquelas fantasias, aqueles sonhos que fiz para nós dois; uma incrível quantidade de amor que eu joguei para o ar, a fim de que você pudesse cingir alguma parte dele; mas foi disperdiçado, por tolice, por nós dois. E ainda assim, sozinho aqui em casa, tento buscar alguma coisa que me faça lembrar sua presença, senti-la aqui comigo: um cheiro, lembrar daquele beijo, que nunca provei outro igual, qualquer coisa; e desespero-me porque não há nada seu mais aqui, e tudo aqui está cheio de você. Como já lhe disse, o sofá, que ainda está no escuro, está cheio de você; nosso quarto, nossa cama, este lençol está cheio da sua presença; sim, o lençol.. ainda me deito todas as noites sobre o lençol sobre o qual demos nosso primeiro beijo, dói-me, inclusive, ter de lavá-lo, pois sinto que a cada uma dessas lavagens um pedaço de seu cheiro, que já não existe mais, vai-se embora, é levado pela corrente, como a corrente que a apartou de mim.

E assim sigo minha existência, não minha vida, pois não a tenho decerto, esperando que um dia voltes; tenho andado algumas vezes na sua antiga casa, ainda escurecida pelo vazio que ali permanece, anoitecida e um tanto gasta, depois que a energia dela fora embora. Minha alma é como sua velha casa, está perdendo a energia paulatinamente desde quando foi embora, carregada pelo vento.

Por Rafael

Tuesday, July 26, 2005

America's Hiroshima


Esse é o nome carinhosa e supostamente atribuído a um novo plano desenhado por parte de Osama bin Laden e sua afamada Al-Qaeda ("A Base", em tradução rude) que consiste em levar aos Estados Unidos nada mais-nada menos que 70 bombas nuncleares para serem detonadas, como uma retaliação e um "protesto" à permanência de tropas norte-americanas (principalmente) no Iraque. A notícia corre pelos sites de mídia não-oficiais.

De acordo com esses sites, Osama comprara as bombas ou as retirara da ex-URSS. Convém lembrar e mesmo questionar que 70 bombas simplesmente desaparecidas de um arsenal controlado em parte pelos próprios norte-americanos é fato alarmante (ou mesmo irônico). De qualquer forma, essas bombas foram transportadas ao México e adentraram os Estados Unidos com a ajuda de uma gangue mexicana chamada MG-13. Dediquemos um parágrafo a ela, visto ser até certo ponto desconhecida dos brasileiros.

A gangue MS-13 (Mara Salvatrucha), de acordo com o site KnownGangs.com, é composta de exilados de El Salvador, resultado de uma guerra civil nesse país. Eles então fugiram para os Estados Unidos, mas mantiveram contatos com a gangue mexicana El Mara; por causa da discriminação que os espanhóis (latinos) sofrem nos Estados Unidos, a gangue resolveu tornar-se "oficial", sendo organizada hierarquicamente e possuindo membros desde os 12 anos de idade até adultos. Ela é atuante no México, na América Central como um todo (mais notadamente Guatemala, Honduras e El Salvador), nos Estados Unidos Central e até mesmo no Canadá. O site da Newsweek classifica-a como a gangue mais perigosa dos Estados Unidos.

Bom, depois dessa rápida digressão, continuemos aos passos do plano de Osama bin Laden. Sendo as bombas transportadas pela gangue MS-13, elas já se encontrariam nos Estados Unidos, prontas para a detonação, apenas aguardando ordem expressa do Oriente. A respeito do número de bombas, as opiniões de especialistas em terrorismo variam: há o grupo que diz que as bombas são em número de sete, alguns dizem quatro e a maioria diz quarenta. O dinheiro da compra dessas bombas viria dos aliados chechenos na Criméia.

Os locais-alvo seriam as capitais mais conhecidas dos Estados Unidos e, de acordo com informações supostamente obtidas por informantes nos Estados Unidos, as bombas seriam colocadas em locais com maior densidade demográfica relativa de crianças. Algumas cidades são apontadas: New York City, Los Angeles e San Francisco.

A suspeita desse ataque de destruição em massa (e que mataria cerca de quatro milhões de norte-americanos), veio de um ex-diretor da CIA, Paul L. Williams, através de um livro seu
"The Al Qaeda Connection: International Terrorism, Organized Crime and the Coming Apocalypse" ("A Conexão Al-Qaeda: Terrorismo Internacional, Crime Organizado e o Apocalipse Vindouro"). De acordo com suas palavras, um mês depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, duas malas contendo cerca de 80kg de urânio e plutônio, suficientes para fabricar bombas com até 2 kilotons em excesso, teriam chegado às bases operacionais da Al-Qaeda nos Estados Unidos. Uma dessas malas possui o número de série russo 9999 e data de 1988. O mecanismo, ainda de acordo com Williams, "é simples:o plutônio e o urânio são mantidos em compartimentos separados que estão ligados a um mecanismo detonador que pode ser ativado por um relógio ou uma chamada de celular". O presidente Bush falhara em suas políticas em relação ao México, mas ordenara a construção de bunkers (espécie de fortificação usada em guerras) para manter seguros os oficiais do governo em caso de ataque. Ainda de acordo com ele, cada um dos membros da MG-13 teriam recebido de 30 a 50 mil dólares para cada uma dessas malas transportadas Estados Unidos adentro.

No entanto, alguns fatos chamam a atenção de pesquisadores e mesmo curiosos no assunto. Em 2002, um aviso sobre uma operação deste tipo fora dada jornal London Times (obviamente, de Londres). Em 24 de novembro do mesmo ano, a mídia de notícias "The Observer" publicou na íntegra uma carta de Osama bin Laden aos americanos e àqueles que ocupam seu país, indicando as razões pelas quais os ataques contra as "potências ocidentais" vão continuar (Osama citou até o Alcorão, algo que relembra o famoso "Olho por Olho, Dente por Dente" do Hamurabi: "É dada a permissão de lutar (contra os infiéis) aos fiéis que contra esses lutas são travadas, pois estes foram enganados e certamente Alá é Capaz de garantir-lhes [aos fiéis] a vitória", Alcorão 22:39). Mais alertas foram feitos em 2003, através da mídia jornalística e sites de internet, no sentido da obtenção de armas nucleares por parte da Al-Qaeda.
Um fato que chama a atenção resume-se na seguinte pergunta: por que a 'grande mídia' (jornais como o The New York Times) não têm ainda matérias explícitas sobre tal possível ataque, que, apesar da parcela da população mundial ser indiferente, devido ao crescente anti-americanismo, é plausível, haja visto o tamanho do ódio que movimenta a cabeça dos extremistas islâmicos. Os sites que informam esse tipo de notícia (principalmente o WorldNetDaily) são chamados de "mídias alternativas", não sendo levados em consideração.

Há alguns membros da política dos Estados Unidos que estão preocupados com o assunto, a exemplo do republicano Tom Tancredo, que está pedindo uma análise de inteligência sobre as armas que a Al-Qaeda possui. Nenhuma palavra é dita pelo presidente George W. Bush ou qualquer outro de seu governo até o presente momento. Livros recém publicados, como o de Williams, estão aumentando de número cada vez mais e a atenção do público já está captada (como o provam dezenas de fóruns de discussões na internet).

Apesar de o episódio parecer até satírico, assim o pensavam as ameças pré-'11 de setembro' e que se mostraram muito verdadeiras, depois que cerca de 5 mil civil morreram. O governo norte-americano deve ficar atento para um ataque em tal proporção. As conseqüências dele, se de fato ocorrer, podem ser desastrosas não só para os norte-americanos, mas sim para o mundo inteiro.

Sunday, July 24, 2005

Carta 1
por Rafael

Olá, querida. Já faz muito tempo que não nos falamos, então decidi sentar-me para escrever esta carta. Venho planejando-a há algum tempo, mas sempre me senti covarde e nunca pude começar realmente esta carta; agora, alguns dias depois, consegui reunir a coragem sufiente para escrever.

A primeira coisa que me atrapalha é examatente a que era a mais fácil de todas, no nosso tempo: sobre o quê irei falar? Vê: esse não sou eu, eu sempre falei bastante, conversei com você; sempre ouvia seus problemas diários, aquelas coisas insignificantes que interferem no nosso dia a dia; sempre deixei que você falasse o que queria para mim, e eu nunca interrompia. Agora, sentado só aqui nesta sala – você se lembra da sala, não? Estou na mesa, com a luz de uma pequena luminária iluminando apenas esta branca folha de papel; desde que fora algumas coisas mudaram por aqui: o sofá já não é mais branco: coloquei um azul no lugar, porque o branco me faze lembrar você; não acendo mais a luz por cima da mesa, deixando seu lugar no escuro, pois era ali que comias, sorridente e elegante, a comida que nossa criada fazia: para que não me abata a cabeça, ela permanece no escuro, exceto à luz do dia; a criada, mesmo, fora embora, depois explico o por quê – então, sentado na sala, a nossa sala, sinto como se não conseguisse mais falar de nada, nem mais aos amigos que você tanto apreciava; alguns deles, veja!, casaram-se; outros estão como eu e outros estão felizes, mesmo sós.

A palavra me falta, assim como você me falta. Na verdade não sei bem o motivo pelo qual escrevo, pois provavelmente esta carta não irá sair dessa mesa; o pó que o tempo, lento, deposita sobre a folha irá recobrir nosso passado. Sinto falta dele. Com ceteza. Sentes também? Sou egoísta de achar que não, que nosso passado em você se apagou, como a vela que se apaga quando chega ao fim. Serás a vela e eu a chama? Ou és a chama e eu a vela? Não sei – tudo isso é muito estranho, tudo está muito estranho agora.

O piano de carvalho, aquele que alegrava nossos Natais e anos novos – este sim é usado. Toco todos os dias, posso até dizer que fiquei bom em sua infinda jornada de aprendizado. Como todo o resto, a música mudou. Deixei nosso Scott Joplin de lado, seus regtimes não mais animam as cordas do piano; estas, depois de brusca mudança, amoleceram-se e entristeceram-se. De Joplin passei a Chopin – incrível como esse grande mestre invoca os sentimentos mais escondidos e refreados da minha alma: sinto-me livre, como se ao ar passasse minhas mágoas, minhas tristezas, meus encantos, enfim. As notas graves dos noturnos invadem a clareza e o luz fulva do sol, e ela se apaga, porque eu me apago. Ainda resta um pouco daquelas melodias de nossa vida. Mas elas não saem do piano, não. Elas estão presentes em cada canto da casa (alguns dias em alguns deles sento-me nesses lugares, como se com isso eu pudesse – e esperasse – ouvir o toque de mão na porta, tão característico seu que ainda o escuto quando vou dormir, ou mesmo no meio de uma música que dedilho no piano), em cada espaço vago da casa, ou que a casa reservara para mim. Às vezes penso na casa: sinto como se ela soubesse e antevisse o que minha vida seria, e logo se adaptasse à minha nova vida, ao meu novo estilo; os degraus da escada sempre descem, como minha vida, choram e se espelham no meu próprio e interior-exterior tormento. Chopin, felizmente, dá-me o consolo de que preciso.

Já o sofá era demais. Quantas e quantas noites passamos ali, espraiados nas largas almofadas brancas que colhiam nossas cabeças! Não agüentei, absolutamente, e resolvi que o removessem de nossa casa. A televisão: não a ligo há mais de quatro meses. Simplesmente não sinto vontade de ver o que acontece no mundo, o que se passa com os outros, gosto apenas de ver o que se passou conosco e o que não se repetirá. Nada se repete, eu sei, como você mesmo dizia, mas tudo se recria, como eu o digo agora. Meu tormento aumenta quando sei e vejo que nada daquilo que poderia ter sido, será; e nada daquilo que foi, recriar-se-á. Apenas sinto minha alma esboçada, como se não estivesse completa, como se não fosse algo bom, e sim algo que me consumisse totalmente por dentro, por fora, por todo lugar.

As ruas, evito-as. Vejo pessoas andando através da janela – e aqui causa-me o maior pesar, pois fora na janela que começamos e ali... ..., ..., terminamos – essas pessoas andam para lá e cá; que será que pensam? Será que sofrem? Será que estão alegres? Se bem que esses últimos são os mais fáceis de se detectar, quem me dera!, ao menos um segundo a mais... Quando chove, sento-me ao pé da janela para ver os caminhos argênteos da água na janela: a cidade, ou a disposição das casas, tem um imenso poder de fazer minha mente reminescer. A água cai, assim como eu caio, dentro de mim; carros passam cautelosos, pessoas passam correndo, um animal aqui e ali: todos eles têm um propósito, todos eles têm um destino, e eu estou sentado na janela. Não tenho destino, ou, porém, já esteja ao fim do meu destino: estou em casa, em nossa casa. Não! Não cheguei ao fim! Você não está presente!

Soube logo após sua partida que estás novamente casada. Sinto-me feliz; não, não por você, mas pela outra pessoa. Terá uma ótima e inefável companhia, sem dúvida. Não sinto por você, pois, talvez, irás fazer o mesmo que fizera comigo a ele. Logo, sinto pena dele, isso sim. Mas não a culpo, nem o culpo. Talvez eu devesse me culpar, ou não; não sei ainda ao certo o que ocorrera, e nem quero nem desejo nem penso nem ligo nem me apresso nem desejo saber. Que permaneçam ocultos os motivos! E, no entanto, não deixo de pensar de pensar de saber de ligar de me apressar a saber; o que eu fiz de errado? Dizia-me que eu era o homem de sua vida. Dizes tu também para outro? Amoleces o coração honesto de alguém e também o jogará fora? Será que, pelo seu preconceito, achaste que eu seria algum tipo de vadio como tantos outros por aí?

Não sabes, e isso não é só contigo, que ainda há pessoas de bem, que se escondem por trás do mal para que possam ser intergrados à sociedade, que demanda pessoas desonestas, pessoas más (não em todos os sentidos, mas você sabe no qual eu falo); e então, quando algum honesto lhe aparece, parece-lhe fraco, indisposto e atencioso demais. Nunca entendi nos seus xingamentos, nos seus momentos de raiva, por quê dizia sempre que eu era atencioso demais. Não era isso que procuravas? Não é isso que procura toda a mulher? Tenho hoje minhas dúvidas! E o fato de falar de ser ‘romântico’. Sempre li vi ouvi que as damas de nossa sociedade depravada apreciam um bom cavalheiro. Não fui cavalheiro o suficiente? Não tens o direito de o negar! E é isso o que acontece! As pessoas de bem, sentimentais sem ser execráveis, são negadas! E o que resta a eles? Sabes! A melancolia. A mesma que me abate agora; aquele sentimento de ‘e se eu tivesse sido feito falado agido repreendido xingado’, menos ‘amado’ demais? Vivera eu, então, num mundo de sonhos, em outro planisfério, num mundo onde a ilusão predomina acima de qualquer coisa, acima de todas as coisas: em um mundo onde eu achava que verdadeiramente me amavas queria apreciava desejava, e não apenas falava nisso tudo, como quem nada quer. Dei-te o mundo, dei-te o que sonhavas, e pretendia dá-lo mais, porém foste antes que pudesse ter tido a sorte que nunca terás! Dei-te, enfim, minh’alma, como escrevem os poetas – esses sim sabem como me sinto. E tu ficaste com ela, guardaste-a num baú, com uma imensa combinação, que nunca mais será aberto, que nunca mais terá o prazer de ser aberto. Esse baú, minha amada, é minha caixa de Pandora. Ali está minha alma, ali estão os males de nossa casa; ali ficou a minha vida.

Ética

Lendo as notícias diárias na Internet, uma frase do senhor Luís Inácio da Silva chamou-me a atenção:

"Quero dizer para vocês, meus companheiros, que nesse país de 180 milhões de habitantes pode ter igual, mas não tem mulher nem homem que tenha coragem de me dar lição de ética, de moral e de honestidade. Nesse país, está para nascer alguém que venha querer me dar lição de ética".

Gostaria de saber se alguém chegasse e perguntasse ao dito senhor: "Por favor, defina-me ética..", duvido que saberia responder sem uma daquelas folhas de discurso que alguém letrado sempre prepara para o dito senhor (percebe-se quando o discurso é próprio do dito senhor quando fala-se do imenso litoral da Bolívia; não, senhores, isso não é invenção minha). Um homem que clama não saber da imensa 'rede de corrupção' (já uma instituição, com registro em cartório) não sabe governar, pois não tem controle sobre seus companheiros.

Sem querer deixar longo esse texto, devo dizer que muitas pessoas que seriam capazes de definirir 'ética'; mas, para quê perder tempo tentanto explicar: ele não entenderia de qualquer maneira!

Saturday, July 23, 2005

Petrarca e Liszt no Soneto 104

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
et temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra il cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto 'l mondo abbraccio.

Tal m'à in pregion, che non m'apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m'ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.

Este é o soneto numerado 104 no Canzoniere de Francesco Petrarca, o criador do soneto. O soneto, impregnado de dúvidas e desconsolos por parte do "eu" lírico, inspirou em Liszt (século XIX, portanto, na fase romântica da música dita 'clássica') a composição de uma de suas mais belas obras.

De extrema e complicada execução, a obra (que está na coleção "Deuxième Année de Pèlerinage", volume 43 da excelentíssima gravação de Leslie Howard pela Hyperion) tem caráter sutil e melancólico, presente em todo o soneto. A música inicia-se com um adagio crescente, que culmina em um clímax, subitamente descendo a uma cadência completamente fora de tempo regular em appogiaturas lentas. O início da linha melódica dar-se-á na segunda parte, de complexa composição e que requer extrema habilidade do pianista (Bolet e Horowitz tocaram-na perfeitamente). As quiálteras da mão esquerda entram em conflito com os arpejos constantes da mão direita, que dão toque de continuidade na melancolia do "eu" lírico-musical. A repetição de notas insinua a continuidade da lamentação do poeta e do piano.

Após esta segunda parte, a música atinge o clímax em seu ponto médio: acordes de três a quatro notas, cadências muito rápidas (que parecem realmente sair de um subterrâneo da melodia para se impôr na música) e a mudança para fortíssimo dão esse efeito magnético à música. Apesar desse estrépito, a indicação na partitura mantém-se sempre como sempre appassionato, fazendo com que o pianista se esforçe ao máximo a passar a impressão de paixão que o poeta sentira no poema.

O final mantém-se dúbio, com os constrastes entre notas agudas e notas graves, exploradas muito por Chopin, e que Liszt dele as imprestara. A composição não termina, deixando no espaço ainda um resquício do que o poeta narra à sua amada, explicitando-o no final do poema: "
in questo stato son, donna, per voi"...

Crime e Castigo (Dostoevski)

Dostoevsky destaca-se como um dos maiores escritores da literatura mundial do século XIX. Consagrados pelos críticos e muitas vezes amado pelos leitores já em sua primeira leitura, seus romances distinguem-se pelo caráter psicológico pelo qual os personagens são apresentados. "Crime e Castigo" fundamenta-se nesse princípio.
A narrativa (endógena e exógena) centra-se na figura de Rodion Romanovitch Raskólnikov (chamado mais por esse último nome). Seu nome deriva da palavra russa raskolnik, que significa "dividido" (caracterítica presente em quase a totalidade dos pensamentos da personagem). Logo de início, um dos temas retrados pelo autor se desenvolve: Raskólnikov acha-se uma espécie de 'super-homem', um ser 'extraordinário' e, assim, posto acima das regras e concepções da maioria dos homens. Logo, torna-se um alienado à sociedade. O exemplo marcante desse sentimento inerente ao personagem é um artigo que escreve no qual se justifica certos tipos de crime, dependendo das circunstâncias em que esses são cometidos e seu propósito final (lembrando a frase nunca dita e atribuída a Maquiavel: "os fins justificam os meios").
Outro tema abordado no brilhante romance é o niilismo, presente na Rússia na época da composição da obra. Consiste, condensadamente, na negação da família (Raskólnikov por várias vezes evita a companhia da mãe e da irmã Dúnia, que papel importante faz na narrativa) através da distância relativa entre o personagem e seus parentescos; rejeita as ligações sociais, desprezando a idéia de alma e apegando-se ao mais estrito materialismo. Também, muito notável no romance, o utilitarismo, ou seja, a idéia da finalidade de algo depender do bem que esta traz à humanidade (Raskólnikov defende um crime, dizendo que um criminoso que fora morto é um problema a menos na sociedade); presente na personagem central, o afastamento das emoções e da sociedade, inscritas no livro em pequenos detalhes, tais como a posição em que se encontra Raskólnikov: isolado no bar, no canto da sala, com aparência tímida; a idéia de sentimento e emoção também o personagem rejeita, pois no romance há, por parte de Raskólnikov, tal desprezo e indiferença pelos sentimentos dos outros (e a certo nível com os seus mesmos) que às vezes o modo como se expressa é rude e intempérico. Obviamente há exceções, como no episódio da carta, no ínicio do romance.
Há motivos apontados pelos críticos que fazem com que as pessoas ajam da maneira como o fazem no livro. Cita-se a pobreza presente na Rússia, como se nota no decorrer do romance, descrevendo paisagens decadentes, imagens rudimentares (prédios velhos, decadentes) e dá-se imensa importância ao dinheiro (notar como as pessoas e, principalmente o chefe de polícia, fica escandalizado com a doação do dinheiro dado a Raskólnikov por sua mãe ao enterro de um homem que andava pelas ruas embriagado e fora atropelado por uma carroça).
O romance se passa na cidade de São Petersburgo ("onde o sol se põe às 21 horas e nasce às 23 horas") mas essa é um mero plano de fundo para a narrativa. O verdadeiro local onde a narrativa se encontra é na própria mente de Raskólnikov, na descrição de seus pensamentos dúbios, divididos, mascarados e conflitantes. Exatamente aí o autor revelara-se brilhante em sua obra. A tese do autor não é analisar o crime ou mesmo o castigo em si, mas sim o tempo decorrido entre um e outro; a mente de uma pessoa que deve suportar o imenso fado de carregar consigo e sentir-se perseguido sempre (alguns psicólogos chamam esse estado de 'paranóide'); tanto é que o crime se realiza na primeira parte do livro e o castigo vem centenas de páginas depois. Alguns críticos defendem a opinião que o 'castigo' é a própria condição de Raskólnikov, a de viver em constante deturpação mental.
A obra é considerada um clássico e merece a leitura prazeirosa. Há várias edições disponíveis no mercado, das mais baratas e acessíveis às mais caras. De qualquer maneira, o leitor apega-se ao livro de tal forma que não consegue largá-lo, mesmo já desconfiando o final da história (que marco, com convicção, ser o menos importante de tudo); o desenrolar dela no modo de escrita que empreende Dostoevsky é o mais impressionante. Um clássico imortal.

Rafael

Honoré de Balzac - A coisa em Ghent

Um estranho fato ocorreu em Ghent enquanto eu estava lá. Uma senhor há dez anos viúva jazia em sua cama, atacada por uma doença mortal. Os três herdeiros insignificantes estavam à espera de seu último suspiro. Não saíam de seu lado por medo que ela desse seu testamento ao convento de Beguins, pertencente a cidade. A mulher doente manteve-se quieta; ela parecia cochilar e a morpte parecia se espalhar gradualmente por seu mudo e lívido rosto. Podes imaginar aqueles três parentes sentados em silêncio pela’quela meia-noite de inverno ao lado do leito dela? Uma velha enfermeira está com eles e ela sacode a cabeça; o doutor vê com ansiedade que a doença alcançou seu estágio final, e segura seu chapéu com uma mão e com a outra gesticula aos parentes, como se para dizê-los: “não tenho mais visitas a fazer aqui”. Por entre o grave silêncio do quarto é ouvido o fraco som suave de uma tempestade de neve que bate contra a proteção da janela. Por medo que os olhos da mulher que perece possam ser atingidos pela luz, o mais jovem dos herdeiros havia posto um amparo na vela que estava perto da cama a fim de que o círculo de luz mal pudesse chegar ao travesseiro da cama mortuária, da qual a doentia e amarelada aparência da mulher doente fosse notada como a figura de Cristo imperfeitamente folheada a ouro e fixa em uma cruz de prata corroída. Os raios trêmulos espalhados pela chama azul de um fogo estalante era assim a única luz desta sombria câmara, onde o resultado final de um drama estava para findar. Um pedaço de lenha subitamente rolou do fogo ao chão, como se fora o presságio de alguma catástrofe. Ao som disto, a mulher doente rapidamente levantou-se a uma postura sentada. Ela abriu os dois olhos, claros como os de um gato, e todos os presentes a fitaram em espanto. Ela viu a madeira avançar, e antes que qualquer um pudesse ver, um movimento inesperado que pareceu ser motivado por um delírio: ela pulou da cama, pegou as varas e jogou o carvão de volta à lareira. A enfermeira, o doutor e os parentes apressaram-se para assisti-la; pegaram a mulher que morria em seus braços. Colocaram-na de volta à cama; ela pousou sua cabeça sobre seu travesseiro e depois de alguns minutos morreu, mantendo os olhos fixos, mesmo depois da morte, naquele pedaço de madeira no chão que fora marcado pelo toque incendiante. Mal havia a Condessa Van Ostroem expirado quando os três co-herdeiros trocaram olhares de suspeita, e pensando não mais em sua tia, começaram a examinar o chão misterioso. Como eram belgas, seus cálculos foram rápidos como seus olhares. Um acordo fora feito em três palavras murmuradas em voz baixa dizendo que nenhum deles deveria deixar a câmara. Um servente fora despachado para chamar um marceneiro. Seus insignificantes corações batiam com excitação à medida que se reuniam em torno do chão de tesouro, e observaram o aprendiz dando a primeira batida com seu machadinho. O chão fora cortado.
“Minha tia sinalizou”, disse o mais jovem dos herdeiros.
“Não; fora um mero tremor de luz que dera essa aparência”, retrucou o mais velho, que mantinha um olho no tesouro e outro no cadáver.
Os aflitos parentes descobriram exatamente no lugar onde a lenha havia caído um certo objeto artisticamente envolto em gesso.
“Prossiga”, disse o mais velho os herdeiros.
O martelinho do aprendiz então trouxera à luz uma cabeça humana e alguns estranhos pedaços de roupa, as quais reconheceram como sendo do nobre que toda a cidade acreditava ter morrido em Java, e cuja perda fora amargamente deplorada por sua esposa.

Traduzido por Rafael